quarta-feira, 2 de abril de 2008

ALGUMAS PELES A MENOS

Talvez tenhamos nascido com “algumas peles a menos”, como diria Doris Lessing em Autobiografia Vol. I e, por isso mesmo precisamos criar um mundo inteiro de palavras através dessa pele fina para nos sentirmos refeitos a cada dor repartida. Nessa cumplicidade tenho me sentido “água sobre água, eis a textura de nossas peles”, como digo num poemeu. Eis a tônica, sem gin, dessa vida limonada com as dores e prazeres do tempo presente que nos esfola vivos muitas vezes na relação com o outro; aquele ou aquela que se nos apresenta tantas vezes distante e árido, que se vende facilmente às facilidades nos afetos e desafetos. Depois, acredito que numa relação chega o dia em que não há como recolher as folhas que secaram e caíram e, já adormeceram sob os pés do mundo e que, não há como reanimar na memória corporal os neurônios que se deseletrificaram em zonas específicas de nossas peles – campos imantados de poesia, diria -. Eles nunca saberão disso ...?! ... falta-lhes doçura, falta-lhes ouvidos para a voz do vento que a poesia nos sopra, falta-lhes o aprumo dos girassóis, “falta-lhes a liberdade das almas... frágil, frágil como o vidro”, como diria C. Meireles, debaixo da pele não frágil sob chuvas de fogo.

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