quinta-feira, 3 de abril de 2008

TRANSMUTAÇÃO

Transmutado de pirâmide às avessas, não mergulhava mais às cegas entre tuas colchas de retalhos do passado na cama – codinome do prazer – sorvendo o ar de dálias e mastigando refinadas glórias que me fazia invariavelmente lembrar aqueles botões com tua efígie e teus olhos de metal – fixos e lisos – fitando minhas costas lavadas por uma luz úmida. Naquele tempo começara a suspeitar que a cama – essa zona de litígio – qual antes me fora um continente perdido num imenso oceano, assumira a forma de uma ilha com um abismo à esquerda e um demônio familiar à direita. Fora o começo do desencanto meu ou do teu cabotinismo? Não sei, não sei, posto que, ainda nos permitíamos que tal amor policial e inquieto assumisse a responsabilidade do regresso com o perverso intuito de degolar, decepar-nos as mãos. Se foi um jogo, uma brincadeira por entrelinhas os corpos desfaleceram como mudas rosas sem perfume extasiados. Ainda assim as nuvens em sol ou sereno impõem regras mínimas de transparência aos dias seguintes e consolam flores reticentes mesmo que desprezadas em vasos com pedra de sal.