quinta-feira, 3 de abril de 2008

TRILHA DA SAUDADE

Pintei no peito um círculo no exato lugar do coração como “a impressão da trilha da saudade, como um artesão de palavras sem nome”. O dia passou sem avisar-me e deixou a flutuar o coração num limbo de indecisão sobre a pele, roubou-me da vista os jatos amarelos dos vitrais e findou a noite incrustando nos olhos um pântano sem horizontes. À pele restou no dia seguinte uma respiração gretada pelo sol; à fala da areia-pele ficou entre parêntesis na arena da palavra num jogo metafórico no cabelo da letra. Vejo-me em sedução completa e absolutamente iludível pelas letras, talvez para sempre. A palavra, a fala da pele você entende? Aquilo se nos sustenta mais que a clarividência das coisas, a profusão de imagens e símbolos possíveis mesmo que para um universo órfão e, que nunca foi propriamente falado mas que imprimiu uma espécie de diálogo entre o silêncio da escrita e os tracejados em branco entre cada palavra que se abre em fogo, poliédrica, polifônica e desvairada. Silêncio: manejo ensaios com a noite em roletas e fios sinuosos que me prendem bordado ao telhado do mundo há milênios e milênios. E, temporariamente imito nas vitrines de sonhos o vaso chinês que não sou e acordo em Pequim, sangrando cm a flecha da indiferença bruscamente introduzida na contemporaneidade das cenas que faço. Outro silêncio: poemas ensinam o exato sentido de estar confrontado com o próprio sono num misto de abandonar-se e resgatar-se por entre as miragens e brumas possíveis nos sonhos.

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