terça-feira, 1 de abril de 2008

UM NATAL PERDIDO NA MEMÓRIA EM NAFTALINAS

Eu era pequeno, bem me lembro e, o ano está meio perdido, ou melhor, desencontrado na memória. Deve ter sido entre o 5º e o 7º anos de minha vida. Sob nossa velha casa de madeira sem forro e de paredes trêmulas, sobre o piso também de madeira na sala composto de tábuas que se alternavam em PB. O acontecimento: nossa festa de Natal. Nessa época a sala ficava repleta de enfeites artesanais e, apaixonadamente feitos por minhas irmãs (inhas para os íntimos) entre dobraduras em miniaturas de sinos, chaves, botas do velhinho e a árvore de Natal feita de galho seco de árvore. Com matizes de carinho, os vidrinhos reutilizados de Penicilina viravam doses de solidariedade quando preenchidos com tinta colorida e que imitavam folhas. O papel celofane envolvia caroços de frutos da região em multicoloridas bolinhas para enfeitá-la. O algodão, entre o doce e o níveo da paz recobria o acabamento inicial de toda a estrutura da árvore. Minha mãe, hoje para mim Tina, sempre dirigiu toda a vida da casa. Na cozinha inventava sonhos para os filhos. Assim, da calda do cupuaçu, inventou um soberbo merengue de dar inveja para qualquer neve. Do mesmo fruto, da polpa saía a geléia e sorvete, hum. Mas o prato principal foi que deixou minha indelével marca na memória: pato assado com laranja. Nada seria tão inesquecível se esse pato não tivesse um nome que devíamos ter colocado como brincadeira de criança em nosso quintal. Pois bem ele se chamava Cremogema. Eram alvas suas penas. Seu porte de galã enlouquecia as fêmeas da espécie em êxtase, imaginávamos. No sacrificio desses animais, no ritual do lugar, a matriarca teria que fazê-lo tomar uns goles de pinga que, por lá se dizia azul, para que a carne adquirisse a maciez desejada. Só depois desse momento podia desferir-lhe um golpe no pescoço para em seguida assá-lo. E, essa foi a hora do ferro e fogo na memória por que não entendia como saía tanta coisa vermelha de um animal tão níveo. Minha mãe explicou-me que naquela cor saía a vida do animal, para alimentar e dar vida a outras vidas: as nossas, eu e meus outros 11 irmãos - 5 homens e 6 mulheres -, nossos também Papai e Mãe Noel o ano inteiro. Logo depois veio a hora do forno e, como ainda não entendia muito bem essa coisa de morte/vida, chorei ao vê-lo naquele calor infernal. Curiosamente, tentei imaginar tocando com o dedo mínimo esquerdo na porta do forno. Vieram choro e socorro da mãe com água fria no dedinho. Adormeci entre às 16:00h e 22:00h (?). Desperto, tentei encontrá-lo na cozinha e minha mãe novamente contou aquela historinha. Não reclamei e fui com ela ver a arrumação da velha mesa de madeira do centro da cozinha. Estava posta a ceia. O enfeite na base com papel laminado, um arranjo de flores naturais e os adereços natalinos inventaram outra mesa e parecia outra cozinha. Ao centro dela, minha mãe arrumou o pato, agora plenamente assado, decorado com rodelas de laranja do nosso próprio quintal e acompanhado com a farofinha batatina (de batata da mãe Tina) - a melhor do mundo. Ah, nesse ano também chegou nossa primeira eletrola que parecia maletinha de viagem. As músicas marcantes que dançamos na sala até a hora da ceia hoje eu sei e que não esqueço foram “Porque te vas” (J. Morillas), “Patapata” (Myriam Makeba) e I want to hold your hand (The Beatles). Essa noite nunca terminou na memória, hoje naftalinas, hoje entre a 3ª e 4ª décadas de vida, hoje sobre as nuvens, hoje apaixonada por culinária e cozinha, hoje apaixonada, hoje, hoje...

2 comentários:

BILU disse...

Que lindo irmão. Já me deu uma idéia para o nosso Natal 2008: que tal se cada um de nós contasse uma de suas histórias de natal??? Já pensou? Como diria o Dani quando pequeno "a gente ia sucessar"

Guaracy Jr disse...

Tão bonito de se ler que dá vontade de estar lá, ao teu lado, vivê-lo contigo.
Mas naftalinas não combinam com o texto que tu guardas nas tuas prateleiras abissais. O cheiro que tu passas no texto é o de saquinhos de patchouli...
Perfumemórias