A cidade vista de longe, a baía vencida, a cidade, os filhos, as crianças, águas muitas águas, lá no alto a cidade, onde a vida corria em outro ritmo diferente dos rios. Chegaram à casa da vó Antônia e tia Helena, jovem bonita e elegante - a moça da janela - de novo na Pedro II, 680, entre Lauro Sodré e Magno de Araújo. Anos se passaram, mais filhos vieram... tia Helena casou-se com Djalma Maciel, construiu uma casa anexa a sua, vieram Júlia Antônia, homenagem às mães e avós, do pai e da mãe, Josenilda Maria das Dores, com vela nas mãos, nasceu fraquinha mas assumiu os olhos graúdos da Ninita, olhos de menina séria; Ângela Maria, em homenagem à cantora nasceu e no noutro dia o velho Pompeu morre; veio Maria de Lourdes, mais uma Lourdes entre os Maués, João Pedro, homenagem ao Frei fundador da Ordem das irmãs Capuchinas do INSA (citação da Eufrásia), Auxiliadora Maués, homenagem à padroeira de padres e irmãs carmelitas INSA de Cametá, Márcio Leno, época da jovem guarda, do Leno e Lílian; Jessiana Regina, caçula rainha: todos em casa e, finalmente, George Hamilton, temporão, nome de ator... George, o mais Heitor dos filhos, na maternidade e parto normal. E a casa? Uma casinha de madeira, de telhas francesas, com uma sala de estar, de todos durante o dia e, de dormir, dos homens mais velhos, durante a noite, um cenário rico de detalhes: piso bicolor em acapu e pau amarelo, um visual listrado que povoa nossa mente como em um teclado de piano alternando o ébano e o marfim em madeiras da região, duas janelas na parede frontal com trancas e taramelas paredes laterais com janela à direita e porta à esquerda, mais trancas e taramelas...desta porta se podia ir ao varandim (varandio PARA NÓS) que ocupava a um terço da parte frontal do nosso chalé, em formato de um L a debruçar-se da parte inicial da porta até um ponto entre as duas janelas. Na sala ficava a primeira televisão, presente do amigo Cohen do Zé, a primeira eletrola à pilha, os elepês com as 14 mais, Renato e seus blue caps, os Beatles brasileiros, Jovem Guarda e Roberto Carlos... O forro da sala era aparente e os móveis antigos, surrados pelo uso e desuso das crianças... Na parede entre as duas portas, no alto, o rádio à pilha, grande, bonito, amado, ouvido diária e noturnamente por Heitor... jogos de futebol, programas chiados e sibilidos nas freqüências da rádio... músicas antigas...Saxofone, por que choras? Noite em Moscou...Alma para conquistar-te, coração, para querer-te e vida, para vivê-la, junto a ti... o dia inteiro a cantarolar, e pela manhã para ouvir radionovela, O Direito de Nascer, Júlia contou em conto.
Da sala para o quarto maior, passava-se pela alcova através da única porta para chegar ao terceiro cômodo. Nele havia 1 guarda-roupas com 2 portas, 4 gavetas (2 grandes e 2 pequenas) na parede dos fundos; 2 janelas opostas nas paredes laterais; 1 cama de casal com os pés de barro e, no único armador de rede do quarto repousava a matriarca. Logo depois por uma única porta chegava-se ao terceiro cômodo. Nesse grande cômodo (para nossos olhos) de 2x2m e 2 grandes janelas, entrelaçavam-se à noite as redes, lençóis, mijadas na rede, humores, sonos entre um sonho e outro de Pedro, Dora e Márcio até a década de 60. Na parede de fundos decorada com imenso painel de colagem feito com fotos de galãs de novelas da época retiradas das revistas folhetinescas devoradas pelos olhos de meninas sérias das irmãs. Passávamos depois para a cozinha, decorada com uma geladeira Gelomatic de um tom de vermelho rutilante, uma mesa grande em madeira crua com quatro ou cinco banquinhos também em madeira (onde ficamos eu e Dôra ficamos muitas vezes de castigo amarrados), fogão Alvorada na cor azul cobalto, além de pratos, panelas, talheres e copos de louça antiga e alumínio ou plástico mesmo, todos perfeitamente higienizados. Da ampla janela de fundos contemplava-se o quintal e suas velhas árvores de cupuaçu, côco, cuieira, ingá e biriba (partido por um raio que o deixou semi-morto) seguidas por um histórico limoeiro. Depois outra de araçá, côco de novo, algodão e urucum (cujas flores falam por si só de uma beleza ímpar desse pequeno pomar de sonhos de nosso quintal) e, por fim a raríssima árvore de ginja (Júlia escreveu sobre ela um belo conto). Era lá no quintal que costumávamos passar horas infindas num misto de sonho e sonho inventando casas imaginárias sem teto, paredes nem nada; bicicletas em pedaços de madeira suspensos, cavalos em palmas secas de açaizeiro enquanto os circos e missas eram montados no quarto... tudo tomava a cor de vida que sonhássemos. Um detalhe curioso era que na lateral esquerda da casa um corredor fechado servia de quarto ao patriarca à noite, alcova dos pais, e, durante as tardes era onde as meninas passavam horas infindas inventando casas mobiliadas com recortes de encartes de jornais e revistas e dobraduras de papel para criar brinquedos imaginários.
Ninita desistiu do trabalho fora de casa, como professora no Vicente Maués... não havia como conciliar crianças e trabalho fora...o jeito era trabalhar em casa... como? Como em Lya Luft, precisa sonhar em todos os cômodos renunciando: “renuncio às palavras e às explicações. Ando pelos contornos, onde todos os significados são sutis, são mortais. Não quero perder o momento belo. Quero vivê-lo mais, com a intensidade que exige a vida: desgarramento e fulguração. Então me corto ao meio e me solto de mim: a que se prende e a que voa, a que vive e a que se inventa. Duplo coração: a que se contempla e a que nunca se entende, a que viaja sem saber se chega - mas não desiste jamais”.
Da sala para o quarto maior, passava-se pela alcova através da única porta para chegar ao terceiro cômodo. Nele havia 1 guarda-roupas com 2 portas, 4 gavetas (2 grandes e 2 pequenas) na parede dos fundos; 2 janelas opostas nas paredes laterais; 1 cama de casal com os pés de barro e, no único armador de rede do quarto repousava a matriarca. Logo depois por uma única porta chegava-se ao terceiro cômodo. Nesse grande cômodo (para nossos olhos) de 2x2m e 2 grandes janelas, entrelaçavam-se à noite as redes, lençóis, mijadas na rede, humores, sonos entre um sonho e outro de Pedro, Dora e Márcio até a década de 60. Na parede de fundos decorada com imenso painel de colagem feito com fotos de galãs de novelas da época retiradas das revistas folhetinescas devoradas pelos olhos de meninas sérias das irmãs. Passávamos depois para a cozinha, decorada com uma geladeira Gelomatic de um tom de vermelho rutilante, uma mesa grande em madeira crua com quatro ou cinco banquinhos também em madeira (onde ficamos eu e Dôra ficamos muitas vezes de castigo amarrados), fogão Alvorada na cor azul cobalto, além de pratos, panelas, talheres e copos de louça antiga e alumínio ou plástico mesmo, todos perfeitamente higienizados. Da ampla janela de fundos contemplava-se o quintal e suas velhas árvores de cupuaçu, côco, cuieira, ingá e biriba (partido por um raio que o deixou semi-morto) seguidas por um histórico limoeiro. Depois outra de araçá, côco de novo, algodão e urucum (cujas flores falam por si só de uma beleza ímpar desse pequeno pomar de sonhos de nosso quintal) e, por fim a raríssima árvore de ginja (Júlia escreveu sobre ela um belo conto). Era lá no quintal que costumávamos passar horas infindas num misto de sonho e sonho inventando casas imaginárias sem teto, paredes nem nada; bicicletas em pedaços de madeira suspensos, cavalos em palmas secas de açaizeiro enquanto os circos e missas eram montados no quarto... tudo tomava a cor de vida que sonhássemos. Um detalhe curioso era que na lateral esquerda da casa um corredor fechado servia de quarto ao patriarca à noite, alcova dos pais, e, durante as tardes era onde as meninas passavam horas infindas inventando casas mobiliadas com recortes de encartes de jornais e revistas e dobraduras de papel para criar brinquedos imaginários.
Ninita desistiu do trabalho fora de casa, como professora no Vicente Maués... não havia como conciliar crianças e trabalho fora...o jeito era trabalhar em casa... como? Como em Lya Luft, precisa sonhar em todos os cômodos renunciando: “renuncio às palavras e às explicações. Ando pelos contornos, onde todos os significados são sutis, são mortais. Não quero perder o momento belo. Quero vivê-lo mais, com a intensidade que exige a vida: desgarramento e fulguração. Então me corto ao meio e me solto de mim: a que se prende e a que voa, a que vive e a que se inventa. Duplo coração: a que se contempla e a que nunca se entende, a que viaja sem saber se chega - mas não desiste jamais”.
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