quinta-feira, 12 de março de 2009

GENEALOGIAMOR - Cap. V

Ninita foi uma mestra na lição de sobreviver e criar os filhos...fazendo-lhes brincar em cada início do ano...quantas capas de chuva, cadernos primeiro em papel de embrulho, depois de papel ao maço, partidos ao meio costurados, encapados com plástico...ficavam perfeitos...os livros, usados ou não, encapados... uniformes, doados ou não pela “Cofrinho”, amigas da Liga Católica, das Filhas de Maria, da Unidade do Coração de Jesus, do colégio das freiras, da família do tio Clodoaldo casado com a prima Maria do Carmo, da Valquíria e Nilcéia, saias de nycron e tergal (tecidos industrializados que não amassavam...senta, levanta...tira o paletó...), plissadas, viradas do avesso, tinturadas, revitalizavam e vestiam as meninas...para os meninos, calções e mais calções em casimira e algodão costurados na velha máquina Singer doada pela vovó...arcos de sombrinhas cobertas com sedas quadriculadas, xadrez, ou com flores e bichinhos...assim as meninas enfileiradas, cabelos Joãozinho cotados pelo pai...para não pegar piolho na escola...assistiram à peste da febre tifóide na cidade...
Surto nos interiores do Brasil sem vacinação... pobres de assistência à saúde... todos os que contraíram tifo morreram...Heitor teve febres e suores... ficou inválido durante 40 dias...como alimentar a prole senão fosse D. Celina Contente, a mais digna dama abaetetubense? Ela era culta, bonita, fizera contato com o governo democrático dos anos sessenta americano... e de lá vinha o auxílio na rede da Aliança para o Progresso...que preparou por baixo dos panos as ditaduras militares da América do Sul... governo que vai de 62 nos EUA...John Kennedy e sua amada Jackie amada por todos?
A família comeu queijo fundido de sabor inigualável, recebia provisões de óleo, fubá, farinha de milho e trigo além de um leite forte, com gosto diferente do leite Nestlé suíço... as crianças brincavam ...era leite peidão... a família vestiu roupas americanas...reformados, do mesmo jeito, não importa...tudo o que se comia ou vestia deveria ir para a caixola, a cabeça, a inteligência aguda daqueles meninos que cresciam e gostavam de estudar...de se reunir para brincar de escola, que se acordavam cedo para enfrentar a chuva nos meses de janeiro e fevereiro e março, com suas capas de chuva, suas sombrinhas recobertas, seus uniformes impecáveis na dignidade daquela carência construída pela hombridade do pai, pelo senso de justiça materno, pelo amor e fantasia que fazia daquele grupo um “algo” mais...
Lembro que do varandim caí e perdi o sentido quando muito pequeno e...era lá que ficávamos horas a fio vendo a vida passar em flores de plástico nos dias de finados, os cupins e saúvas em sobrevôo nos dias de inverno, as bandas marciais em dias setembrinos, a passagem da santa em dezembro, o carnaval dos bobos e outras visões e tantas outras revisões frente a tantas outras a nos abrir para a vida que passava em nosso rio como diria nosso poeta Guaracy “se flores floram em meu jardim é pelo amor que rege e rega as horas em girassol que gira o olhar de nossa rua, logo pétalas de beijos vêm molhar o néctar que as abelhas tomam enquanto dormíamos e sonhávamos borboletas em todas nossas horas e brincadeiras naquela lugar. Ao acordar escutávamos o dia abrir suas flores de algodão e urucum com as últimas notícias da noite que dera a luz: casavam-se a terra fértil com o sereno, filho da manhã, havia festa para a volta do vento em notícias que se davam prenhes de carinho pelo existir colorido em nosso imaginário jardim”. Minha mãe contou-me que durante os dez primeiros anos de casamento, lecionou inicialmente do rio Maracapú (região das ilhas – rural) e depois na Escola Vicente Maués (na cidade). Entre costuras para fora, faxinas e doações de amigos enfrentou a vida enquanto cantava para proporcionar aos filhos as condições que julgava mais adequadas para a sobrevivência digna dos mesmos. Até que veio a formatura do primogênito e a matriarca pode descansar um pouco, deixando as costuras e o pé da máquina de lado, nunca a fibra. Desde a infância, sentimos que a vida queima nas duas pontas. No lugar de células e água, devem correr letrinhas nas nossas veias porque cada vez que sangramos ou lagrimamos, nascem poemas; cada vez que nossas heras são sacudidas o tempo no planta na pele, um caminho que vicejam gramíneas, construindo outros poemas e mais poemas. Os dias se passam, nunca em vão, fortalecendo sonhos que nunca envelhecem apesar do corpo padecer a cada minuto. A alma adormece poeticamente jovem! Os sóis que norteiam esses sonhos nos acordam todos os dias bem cedo e nos adormecem sempre muito mais tarde também. Isto nos impôs o desafio de abrir portas sempre, por isso vamos indo pelo mundo sem temê-las.
Entre 70 e 80, a casa primeira precisava de um descanso. Então houve a decisão de construir uma nova em seu lugar. Alguns filhos foram acomodados junto com os pais na casa do primogênito, outros em outros lugares. A nova arquitetura empunhava uma ampla e conjugada sala de estar e alcova à esquerda, 4 quartos à direita (o das meninas, o dos pais com o filho menor, outro de Ângela e outro de Tom – Marrom) e por último a cozinha e o banheiro. Neste último cômodo havia duas portas em sentido opostos, uma grande janela e aquela mesma vista para o quintal. Os meninos dormiam entre os espaços da sala extensa. Todos os filhos que ainda moraram nessa casa seguiram a mesma trajetória dos gansos mais experientes da prole dos Maués. Eu mesmo, no ano de 1983 saí de lá rumo a Belém onde fiquei até 1994. Em 1995 parti para Óbidos e, depois para Breves em 1996 de onde saí para São Paulo em 1997. Por lá fiquei até 2001. Em 2005, retornei à Abaetetuba fechando com isso um grande ciclo de minha história onde trabalhei pelo coletivo e para bem público na saúde municipal.
Próximo ao Natal, revisitei nosso ninho Maués na Av. D. Pedro II - 680 em Abaetetuba para ver nossos quartos vazios da última casa e... qual foi a grande surpresa? Vi a infância sob os escombros de nossa casa em madeira naquele dia...destruída por insetos, foi-se ao chão nossa casa...de quatro quartos agora somente com duas portas sem sentido, uma janela carcomida pelo tempo e a vista para o fim de uma história (George fotografou um dia). Morri um pouco, senti meio perdido, ou melhor, desencontrado, na memória em naftalinas. Duas portas sem sentido, uma janela carcomida pelo tempo e a vista para o fim de uma história parecia-me o fim e, mesmo assim, daquele dia em diante o Natal remeteu-me novamente ao olfato, visões e outras tantas revisões.
Lembrei que do único guarda-roupas da casa, eu ainda menino imaginava a chaminé por onde o Papai Noel e Heitor desceriam com suas bondades, mãos doces tão doces e me entregariam o tão aguardado carrinho de carinho (um carro de bombeiros). Lembrei que adormeci por anos a fio ao pé do mesmo dia e, não acordaria mais em hora alguma se Morfeu fosse como diria Marina Santa Helena “navegando os mares de luz solitária dos sonhos, vagando por entre vislumbres em anil (repartindo-me, reencontrando-me). As ondas quebravam na enseada. Sons da eterna madrugada de dezembro, por entre vozes do crepitar do fogo, chamavam pelo estio. A vida abrindo-se em copas (tremeluzente), também em rochedos com gosto de sal a liquidez inerente leva-nos a ser nau. E, prosseguimos navegando sempre os mares ao sabor do sol (a luz agora exígua) escorrendo por entre os dedos (repartindo-se) justifica-se nas alturas: Constelações guiam formas ambíguas (Reencontrando-se) sob o raiar do mês que a lua nos revela”.
Certamente há uma lua que redefine nossos dezembros nos últimos anos, de fase em fase renova-se incrustando na pele alternâncias de sorrisos e melancolia. Isso também avança, poro a poro, pelos umbrais de novos desejos, daquilo que o viver intenso assimila. Soam sinos ao longe e o luar torna-se cada vez mais imponente, falando-nos do passado, da infância e adolescência em silêncio, da juventude e maturidade se exaurindo ruidosas e pletóricas de cumplicidade nas formas que apreendemos as relações com o ar, o fogo, a chuva, o vento e as brisas de todas as formas de amor que já conhecemos. Será o início ou o fim de outras águas dentro do peito? Pouco importa, o que fica é se redescobrimos que na eqüidistância entre as estrelas, muitas estórias se afastam ou se aproximam pinelásticas no céu da pele que se plasma em consolo. São sinais, pontos, contrapontos, aspas e parêntesis reinventados? Esse novo luar assemelha-se a outro céu, por debaixo da pele imemorial que, se perde tão logo da noção de tempo espaço e, que torna inequívoca a flora de tic-tacs do passado. Pela presença de algo que não supre as faltas. Pelo desejo ocluso na boca da imensa noite. Pelo sono intranqüilo, velo e desvelo do próprio corpo: esse copo trêmulo e transbordante de águas sobre águas muito antigas – eis a textura da pele em noites imprecisas de um dezembro infindável da existência.
E, no presente, em janeiros quando desperto, tento piscar estrelas e nunca mais apagar essa memória. Talvez por isso estejamos com “algumas peles a menos”, como diria Doris Lessing em Autobiografia Vol. I e, por isso mesmo precisemos criar um mundo inteiro de palavras através dessa pele fina para nos sentirmos refeitos a cada dor repartida. Nessa cumplicidade nos sentimos “água sobre água, eis a textura de nossas peles”, como digo num poemeu. Eis a tônica, sem gin, dessa vida limonada com as dores e prazeres do tempo presente que nos esfola vivos muitas vezes na relação com o outro: aquele ou aquela que se nos apresenta tantas vezes distante e árido, que se vende facilmente às facilidades nos afetos e desafetos. Depois, acredito que nas relações chega-se ao dia em que não há como recolher as folhas que secaram e caíram e, já adormeceram sob os pés do mundo e que, não há como reanimar na memória corporal os neurônios que eletrificaram zonas específicas de nossas peles – campos imantados de poesia, diria, debaixo da pele não frágil sob chuvas de fogo da memória em naftalinas.

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