segunda-feira, 26 de maio de 2008
HORAS EM CARBONO
Livrar o amor do escuro, além do muro e sem ficar só era seu lema. O início de tudo teve nome sob o intenso luminar que de uma cutilada só invadiu-lhe as pupilas. Ao debruçar o rosto na varanda insônia na velha casa de madeira, de onde se contemplava o poente, lá mesmo onde a rua sem sul postava-se perto e longe de tudo e da retina e visão. As perdera muito cedo e, daí as trevas. Para ele abril deveria escrever-se com “U” no final, setembro com setas semoventes e por aí assim e em cada mês um braile novo. Tanto fazia sentido contanto que neles sempre novas formas se abrissem em girassóis de possibilidades. Todos os dias eram noites mesmo, os sonos sempre sonhos crepusculares. Assim até os móveis saiam da inanimada vida e as teclas do telefone passavam a ouvir os macios dedos, os olhos da esposa declaravam-se atemporais sensores, a poltrona conformava-se em torso de tigre e a pia transformara-se na única confidente dos lamentos matinais. Toda forma de guia virava ritual diário noite adentro, noite afora até o fim, começo ou meio de uma nova sequência de horas. Palavras as nossas ficavam encravadas no ar e no peito sem apagar a dor em nossas almas. Horas se passavam sob uma chuva rala de dores expressadas em palavras pó aquele homem que tentava secar as imagens apreendidas do mundo anterior à cegueira. Insistiam mais e mais em molhar a memória líquida de seu corpo e, sem saber que iriam machuca-lo em ondas e ondas. Convencíamo-nos em mudar o curso desse rio merencório agora de mão única e de escuridão. Dizíamos veja bem e, corrigíamos para saiba bem, temos sol nos olhos, mas a ele não chegava mais essa luz. Insistíamos em dizer, tem sol nos olhos que ainda faz girar a vida em girassóis de possibilidades, não duvide. De outra forma não se veja na cegueira porque sabemos o que já fomos em trevas outras nas buscas pelo par perfeito, busca pelo veneno doce e afins. Um ardor de passagens tristes ou o fervor de fomes que marcaram nossa história não podia ser lembrados naquelas horas, horas infindas. A hera venenosa que matou a cor para ele chamou-se glaucoma; encurtou-lhe a vista da vida que nascera com cara de sol. Macerava-lhe os dias em vida, sabíamos. Os humores bi vitelinos, víamos ruir sem nenhum destino em sinapses já deseletrificadas e, quem ousasse dizer nunca ter existido a luz mentiria. De fato as imagens e fotos agora em PB eram deletadas ou queimadas, já sem sentidos. Guardá-las em alguma chave ou fechadura nem não valeria um segredo. Escrevemos essas laudas de nossa vida como quem se despedia? Nunca saberemos ou já sabemos? Eis aí o segredo violável por todo o sempre, sempre e sempre em carbono.
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