sábado, 25 de abril de 2009


Um sopro de agulhas espeta-nos ao tempo hoje com os estiletes-grito. Lágrimas, não se petrificam mais e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito nosso com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tente fisgar com anzól de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob nossas/minha língua à esquerda da história real. Sobra-se este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido, onde tente lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça, os uivos sob sua pele estarei sempre lá.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ONDE ESTOU CHUVA?


Debrucei-me sobre uma tarde dessas chuvosas e chovi mais que a chuva. Olhava-me, chuva. Sentia-me, chuva. Torrencial foi meu canto. Um canto sem tanto. Um pranto no canto. Voltei-me uterino sobre a água que me escorria e vi-me um lago, um rio. Com suspiros, submergi. Senti na pele as últimas bolhinhas de oxigênio esvaindo-se até não mais haver sentido nenhum dentro do corpo. Debrucei-me novamente chuva e chovi ainda mais que a chuva final. Olhei-me novamente outra chuva. Veio outra chuva e, desta, sobrou-me imersão total e silêncio, poro a poro, pelo a pelo. Desagüei nesse dia bem sei. Fitei meu olhar no espelho dessa mesma água lisa e parada à minha frente. Eu não consegui ver-me nesse reflexo. Estive pensando demasiado e profundamente em meus reflexos que senti o naufrágio de tão densos os transformei. Atirei-me então em mergulho e nada? Cheguei a zonas abissais e nada de novo? Emergi sem fôlego e assim fiquei um dia inteiro. Refiz-me a duras incursões e movimentos aeróbicos, tentando achar sentido para tanto sentimento em mergulho para o alto. Ou para o meio de uma estrela que ainda se resta, mesmo cadente de sentidos. Belém, 08/04/09.

terça-feira, 7 de abril de 2009

OLOR EM INCENSOS VERSOS


OLOR EM INCENSOS VERSOS
Enquanto tentamos movimentar nossos tentáculos há séculos capturando vida, insistes em sepultar o fundo de teu mar próprio em merencórios lamentos de fuga. Insisto em recortar-me os neurônios e os axônios, ao mesmo tempo em que recorto anúncios animados dos encartes de uma canção floral esquecida nos olhos. La vie em rose deixou-me ontem em pétalas, bem sei. Por quem e para quem se perfumou? Não sei, não sei. Entrego essa essência aos vasos de amantes, aos amores adormecidos no campo aberto no peito como uma colcha de amapolas. Perco-me em ecos-olores nesse campo de espera. Beijo-me então a mão entre as flores do algodão nos teus olhos, entre girassóis nos cabelos e as flores do trigo em tua pele; deito-me flor de mandacaru, do jambo e desenho em seguida uma grinalda de heras sobre a fronte em novos poemas. Estou a varrer-me nesses dias às zonas abissais de um olor tão crível quanto cantar-te incensos versos num silêncio só.

Belém, em algum dia perdido do mês de abril, despetalando-me.

sábado, 21 de março de 2009

ENTRE MAIO E JUNHO: SÃO PAULO.


Tua imagem me chegou como o sol frio de São Paulo, clareando a sala em citrino morno, tocou-me os cílios e ultrapassou as pupilas em midríase ainda de alguma madrugada cinzametálica com suas eróticas flores de fim de maio. Breve, um céu dourado se espalhou sobre a mesa em reflexos quase falsos nos braços da primeira manhã de junho e sua melancólica saudação plantando estrelas no coração até mais o infinito romper de novos dias. As mãos entre parêntesis sobre um corpo de flores, a bagunça das mobílias da sala, a semi-nudez da rua em nebulosa e, resíduos de gritos interceptados no sono siamês que travara meu corpo com a cama labiríntica, numa noite perdida no meio de mais um mês de junho – o mês da partida. Parti-me ao meio bem sei. Logo, logo furtivas flores se perfumariam de novo em meus lábios à porta de outro ouvido. Paixões em São Paulo, entre maio e junho são assim: (in) finitos laços nas entrelinhas do tempo e espaço; luas nos olhos subindo e descendo toda vez que se canta ou sonha ou toca o nome do ser amante. Dormia-se lá sob o peso de mil nervos e tensões em incêndios de canções inexatas de solitude. Um sopro longínquo de agulhas espeta-me ao tempo hoje com os estiletes do seu grito. Lágrimas se petrificam e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tento fisgar com meu anzol de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob minha língua abissal à esquerda da história real. Sobra-me este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido onde tentei lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça-me aos uivos sob sua pele limosa.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A 6 GRAUS DE SEPARAÇÃO

Em algum lugar-ponto das fronteiras entre nós há um olhar, há um sol sempre brilhando, no entanto quando se levanta sobre o mar, nos debruçamos no centro do mundo para saudar a frágil vegetação da tundra que agora cobre nossos sentimentos tão antigos. O telhado do mundo parece agora permanentemente congelado por milênios e milênios de pura solidão? Talvez o mais profundo lago de saudades se oculte junto com mais de um milhão de outros em tons velozes que desejam locomover-se em ritmo mais lento, claro e transparente como o cristal majestoso, santo de tanto pranto, que está em nossas mãos: o amor. O norte disso tudo ainda congela, onde rios estão desviados no peito e pântanos drenados há muitas gerações num mar de pesados agasalhos de nossos pais? Onde estás agora que pareces não me ouvir? Sob as seis camadas de desolação? A primeira dormente. A segunda indolente. A terceira imberbe. A quarta se despede. A quinta não se mostra. A sexta dobra a esquina e se continua para sempre. Se chorasses agora por mim talvez meu peito o fizesse também por ti. Por quem o tempo choraria sem nossos por perto? Só a eternidade que nos persegue em ideário dirá.

quinta-feira, 12 de março de 2009

GENEALOGIAMOR - Cap. V

Ninita foi uma mestra na lição de sobreviver e criar os filhos...fazendo-lhes brincar em cada início do ano...quantas capas de chuva, cadernos primeiro em papel de embrulho, depois de papel ao maço, partidos ao meio costurados, encapados com plástico...ficavam perfeitos...os livros, usados ou não, encapados... uniformes, doados ou não pela “Cofrinho”, amigas da Liga Católica, das Filhas de Maria, da Unidade do Coração de Jesus, do colégio das freiras, da família do tio Clodoaldo casado com a prima Maria do Carmo, da Valquíria e Nilcéia, saias de nycron e tergal (tecidos industrializados que não amassavam...senta, levanta...tira o paletó...), plissadas, viradas do avesso, tinturadas, revitalizavam e vestiam as meninas...para os meninos, calções e mais calções em casimira e algodão costurados na velha máquina Singer doada pela vovó...arcos de sombrinhas cobertas com sedas quadriculadas, xadrez, ou com flores e bichinhos...assim as meninas enfileiradas, cabelos Joãozinho cotados pelo pai...para não pegar piolho na escola...assistiram à peste da febre tifóide na cidade...
Surto nos interiores do Brasil sem vacinação... pobres de assistência à saúde... todos os que contraíram tifo morreram...Heitor teve febres e suores... ficou inválido durante 40 dias...como alimentar a prole senão fosse D. Celina Contente, a mais digna dama abaetetubense? Ela era culta, bonita, fizera contato com o governo democrático dos anos sessenta americano... e de lá vinha o auxílio na rede da Aliança para o Progresso...que preparou por baixo dos panos as ditaduras militares da América do Sul... governo que vai de 62 nos EUA...John Kennedy e sua amada Jackie amada por todos?
A família comeu queijo fundido de sabor inigualável, recebia provisões de óleo, fubá, farinha de milho e trigo além de um leite forte, com gosto diferente do leite Nestlé suíço... as crianças brincavam ...era leite peidão... a família vestiu roupas americanas...reformados, do mesmo jeito, não importa...tudo o que se comia ou vestia deveria ir para a caixola, a cabeça, a inteligência aguda daqueles meninos que cresciam e gostavam de estudar...de se reunir para brincar de escola, que se acordavam cedo para enfrentar a chuva nos meses de janeiro e fevereiro e março, com suas capas de chuva, suas sombrinhas recobertas, seus uniformes impecáveis na dignidade daquela carência construída pela hombridade do pai, pelo senso de justiça materno, pelo amor e fantasia que fazia daquele grupo um “algo” mais...
Lembro que do varandim caí e perdi o sentido quando muito pequeno e...era lá que ficávamos horas a fio vendo a vida passar em flores de plástico nos dias de finados, os cupins e saúvas em sobrevôo nos dias de inverno, as bandas marciais em dias setembrinos, a passagem da santa em dezembro, o carnaval dos bobos e outras visões e tantas outras revisões frente a tantas outras a nos abrir para a vida que passava em nosso rio como diria nosso poeta Guaracy “se flores floram em meu jardim é pelo amor que rege e rega as horas em girassol que gira o olhar de nossa rua, logo pétalas de beijos vêm molhar o néctar que as abelhas tomam enquanto dormíamos e sonhávamos borboletas em todas nossas horas e brincadeiras naquela lugar. Ao acordar escutávamos o dia abrir suas flores de algodão e urucum com as últimas notícias da noite que dera a luz: casavam-se a terra fértil com o sereno, filho da manhã, havia festa para a volta do vento em notícias que se davam prenhes de carinho pelo existir colorido em nosso imaginário jardim”. Minha mãe contou-me que durante os dez primeiros anos de casamento, lecionou inicialmente do rio Maracapú (região das ilhas – rural) e depois na Escola Vicente Maués (na cidade). Entre costuras para fora, faxinas e doações de amigos enfrentou a vida enquanto cantava para proporcionar aos filhos as condições que julgava mais adequadas para a sobrevivência digna dos mesmos. Até que veio a formatura do primogênito e a matriarca pode descansar um pouco, deixando as costuras e o pé da máquina de lado, nunca a fibra. Desde a infância, sentimos que a vida queima nas duas pontas. No lugar de células e água, devem correr letrinhas nas nossas veias porque cada vez que sangramos ou lagrimamos, nascem poemas; cada vez que nossas heras são sacudidas o tempo no planta na pele, um caminho que vicejam gramíneas, construindo outros poemas e mais poemas. Os dias se passam, nunca em vão, fortalecendo sonhos que nunca envelhecem apesar do corpo padecer a cada minuto. A alma adormece poeticamente jovem! Os sóis que norteiam esses sonhos nos acordam todos os dias bem cedo e nos adormecem sempre muito mais tarde também. Isto nos impôs o desafio de abrir portas sempre, por isso vamos indo pelo mundo sem temê-las.
Entre 70 e 80, a casa primeira precisava de um descanso. Então houve a decisão de construir uma nova em seu lugar. Alguns filhos foram acomodados junto com os pais na casa do primogênito, outros em outros lugares. A nova arquitetura empunhava uma ampla e conjugada sala de estar e alcova à esquerda, 4 quartos à direita (o das meninas, o dos pais com o filho menor, outro de Ângela e outro de Tom – Marrom) e por último a cozinha e o banheiro. Neste último cômodo havia duas portas em sentido opostos, uma grande janela e aquela mesma vista para o quintal. Os meninos dormiam entre os espaços da sala extensa. Todos os filhos que ainda moraram nessa casa seguiram a mesma trajetória dos gansos mais experientes da prole dos Maués. Eu mesmo, no ano de 1983 saí de lá rumo a Belém onde fiquei até 1994. Em 1995 parti para Óbidos e, depois para Breves em 1996 de onde saí para São Paulo em 1997. Por lá fiquei até 2001. Em 2005, retornei à Abaetetuba fechando com isso um grande ciclo de minha história onde trabalhei pelo coletivo e para bem público na saúde municipal.
Próximo ao Natal, revisitei nosso ninho Maués na Av. D. Pedro II - 680 em Abaetetuba para ver nossos quartos vazios da última casa e... qual foi a grande surpresa? Vi a infância sob os escombros de nossa casa em madeira naquele dia...destruída por insetos, foi-se ao chão nossa casa...de quatro quartos agora somente com duas portas sem sentido, uma janela carcomida pelo tempo e a vista para o fim de uma história (George fotografou um dia). Morri um pouco, senti meio perdido, ou melhor, desencontrado, na memória em naftalinas. Duas portas sem sentido, uma janela carcomida pelo tempo e a vista para o fim de uma história parecia-me o fim e, mesmo assim, daquele dia em diante o Natal remeteu-me novamente ao olfato, visões e outras tantas revisões.
Lembrei que do único guarda-roupas da casa, eu ainda menino imaginava a chaminé por onde o Papai Noel e Heitor desceriam com suas bondades, mãos doces tão doces e me entregariam o tão aguardado carrinho de carinho (um carro de bombeiros). Lembrei que adormeci por anos a fio ao pé do mesmo dia e, não acordaria mais em hora alguma se Morfeu fosse como diria Marina Santa Helena “navegando os mares de luz solitária dos sonhos, vagando por entre vislumbres em anil (repartindo-me, reencontrando-me). As ondas quebravam na enseada. Sons da eterna madrugada de dezembro, por entre vozes do crepitar do fogo, chamavam pelo estio. A vida abrindo-se em copas (tremeluzente), também em rochedos com gosto de sal a liquidez inerente leva-nos a ser nau. E, prosseguimos navegando sempre os mares ao sabor do sol (a luz agora exígua) escorrendo por entre os dedos (repartindo-se) justifica-se nas alturas: Constelações guiam formas ambíguas (Reencontrando-se) sob o raiar do mês que a lua nos revela”.
Certamente há uma lua que redefine nossos dezembros nos últimos anos, de fase em fase renova-se incrustando na pele alternâncias de sorrisos e melancolia. Isso também avança, poro a poro, pelos umbrais de novos desejos, daquilo que o viver intenso assimila. Soam sinos ao longe e o luar torna-se cada vez mais imponente, falando-nos do passado, da infância e adolescência em silêncio, da juventude e maturidade se exaurindo ruidosas e pletóricas de cumplicidade nas formas que apreendemos as relações com o ar, o fogo, a chuva, o vento e as brisas de todas as formas de amor que já conhecemos. Será o início ou o fim de outras águas dentro do peito? Pouco importa, o que fica é se redescobrimos que na eqüidistância entre as estrelas, muitas estórias se afastam ou se aproximam pinelásticas no céu da pele que se plasma em consolo. São sinais, pontos, contrapontos, aspas e parêntesis reinventados? Esse novo luar assemelha-se a outro céu, por debaixo da pele imemorial que, se perde tão logo da noção de tempo espaço e, que torna inequívoca a flora de tic-tacs do passado. Pela presença de algo que não supre as faltas. Pelo desejo ocluso na boca da imensa noite. Pelo sono intranqüilo, velo e desvelo do próprio corpo: esse copo trêmulo e transbordante de águas sobre águas muito antigas – eis a textura da pele em noites imprecisas de um dezembro infindável da existência.
E, no presente, em janeiros quando desperto, tento piscar estrelas e nunca mais apagar essa memória. Talvez por isso estejamos com “algumas peles a menos”, como diria Doris Lessing em Autobiografia Vol. I e, por isso mesmo precisemos criar um mundo inteiro de palavras através dessa pele fina para nos sentirmos refeitos a cada dor repartida. Nessa cumplicidade nos sentimos “água sobre água, eis a textura de nossas peles”, como digo num poemeu. Eis a tônica, sem gin, dessa vida limonada com as dores e prazeres do tempo presente que nos esfola vivos muitas vezes na relação com o outro: aquele ou aquela que se nos apresenta tantas vezes distante e árido, que se vende facilmente às facilidades nos afetos e desafetos. Depois, acredito que nas relações chega-se ao dia em que não há como recolher as folhas que secaram e caíram e, já adormeceram sob os pés do mundo e que, não há como reanimar na memória corporal os neurônios que eletrificaram zonas específicas de nossas peles – campos imantados de poesia, diria, debaixo da pele não frágil sob chuvas de fogo da memória em naftalinas.

GENEALOGIAMOR - Cap. IV

A cidade vista de longe, a baía vencida, a cidade, os filhos, as crianças, águas muitas águas, lá no alto a cidade, onde a vida corria em outro ritmo diferente dos rios. Chegaram à casa da vó Antônia e tia Helena, jovem bonita e elegante - a moça da janela - de novo na Pedro II, 680, entre Lauro Sodré e Magno de Araújo. Anos se passaram, mais filhos vieram... tia Helena casou-se com Djalma Maciel, construiu uma casa anexa a sua, vieram Júlia Antônia, homenagem às mães e avós, do pai e da mãe, Josenilda Maria das Dores, com vela nas mãos, nasceu fraquinha mas assumiu os olhos graúdos da Ninita, olhos de menina séria; Ângela Maria, em homenagem à cantora nasceu e no noutro dia o velho Pompeu morre; veio Maria de Lourdes, mais uma Lourdes entre os Maués, João Pedro, homenagem ao Frei fundador da Ordem das irmãs Capuchinas do INSA (citação da Eufrásia), Auxiliadora Maués, homenagem à padroeira de padres e irmãs carmelitas INSA de Cametá, Márcio Leno, época da jovem guarda, do Leno e Lílian; Jessiana Regina, caçula rainha: todos em casa e, finalmente, George Hamilton, temporão, nome de ator... George, o mais Heitor dos filhos, na maternidade e parto normal. E a casa? Uma casinha de madeira, de telhas francesas, com uma sala de estar, de todos durante o dia e, de dormir, dos homens mais velhos, durante a noite, um cenário rico de detalhes: piso bicolor em acapu e pau amarelo, um visual listrado que povoa nossa mente como em um teclado de piano alternando o ébano e o marfim em madeiras da região, duas janelas na parede frontal com trancas e taramelas paredes laterais com janela à direita e porta à esquerda, mais trancas e taramelas...desta porta se podia ir ao varandim (varandio PARA NÓS) que ocupava a um terço da parte frontal do nosso chalé, em formato de um L a debruçar-se da parte inicial da porta até um ponto entre as duas janelas. Na sala ficava a primeira televisão, presente do amigo Cohen do Zé, a primeira eletrola à pilha, os elepês com as 14 mais, Renato e seus blue caps, os Beatles brasileiros, Jovem Guarda e Roberto Carlos... O forro da sala era aparente e os móveis antigos, surrados pelo uso e desuso das crianças... Na parede entre as duas portas, no alto, o rádio à pilha, grande, bonito, amado, ouvido diária e noturnamente por Heitor... jogos de futebol, programas chiados e sibilidos nas freqüências da rádio... músicas antigas...Saxofone, por que choras? Noite em Moscou...Alma para conquistar-te, coração, para querer-te e vida, para vivê-la, junto a ti... o dia inteiro a cantarolar, e pela manhã para ouvir radionovela, O Direito de Nascer, Júlia contou em conto.
Da sala para o quarto maior, passava-se pela alcova através da única porta para chegar ao terceiro cômodo. Nele havia 1 guarda-roupas com 2 portas, 4 gavetas (2 grandes e 2 pequenas) na parede dos fundos; 2 janelas opostas nas paredes laterais; 1 cama de casal com os pés de barro e, no único armador de rede do quarto repousava a matriarca. Logo depois por uma única porta chegava-se ao terceiro cômodo. Nesse grande cômodo (para nossos olhos) de 2x2m e 2 grandes janelas, entrelaçavam-se à noite as redes, lençóis, mijadas na rede, humores, sonos entre um sonho e outro de Pedro, Dora e Márcio até a década de 60. Na parede de fundos decorada com imenso painel de colagem feito com fotos de galãs de novelas da época retiradas das revistas folhetinescas devoradas pelos olhos de meninas sérias das irmãs. Passávamos depois para a cozinha, decorada com uma geladeira Gelomatic de um tom de vermelho rutilante, uma mesa grande em madeira crua com quatro ou cinco banquinhos também em madeira (onde ficamos eu e Dôra ficamos muitas vezes de castigo amarrados), fogão Alvorada na cor azul cobalto, além de pratos, panelas, talheres e copos de louça antiga e alumínio ou plástico mesmo, todos perfeitamente higienizados. Da ampla janela de fundos contemplava-se o quintal e suas velhas árvores de cupuaçu, côco, cuieira, ingá e biriba (partido por um raio que o deixou semi-morto) seguidas por um histórico limoeiro. Depois outra de araçá, côco de novo, algodão e urucum (cujas flores falam por si só de uma beleza ímpar desse pequeno pomar de sonhos de nosso quintal) e, por fim a raríssima árvore de ginja (Júlia escreveu sobre ela um belo conto). Era lá no quintal que costumávamos passar horas infindas num misto de sonho e sonho inventando casas imaginárias sem teto, paredes nem nada; bicicletas em pedaços de madeira suspensos, cavalos em palmas secas de açaizeiro enquanto os circos e missas eram montados no quarto... tudo tomava a cor de vida que sonhássemos. Um detalhe curioso era que na lateral esquerda da casa um corredor fechado servia de quarto ao patriarca à noite, alcova dos pais, e, durante as tardes era onde as meninas passavam horas infindas inventando casas mobiliadas com recortes de encartes de jornais e revistas e dobraduras de papel para criar brinquedos imaginários.
Ninita desistiu do trabalho fora de casa, como professora no Vicente Maués... não havia como conciliar crianças e trabalho fora...o jeito era trabalhar em casa... como? Como em Lya Luft, precisa sonhar em todos os cômodos renunciando: “renuncio às palavras e às explicações. Ando pelos contornos, onde todos os significados são sutis, são mortais. Não quero perder o momento belo. Quero vivê-lo mais, com a intensidade que exige a vida: desgarramento e fulguração. Então me corto ao meio e me solto de mim: a que se prende e a que voa, a que vive e a que se inventa. Duplo coração: a que se contempla e a que nunca se entende, a que viaja sem saber se chega - mas não desiste jamais”.
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GENEALOGIAMOR - Cap. IV

A cidade vista de longe, a baía vencida, a cidade, os filhos, as crianças, águas muitas águas, lá no alto a cidade, onde a vida corria em outro ritmo diferente dos rios. Chegaram à casa da vó Antônia e tia Helena, jovem bonita e elegante - a moça da janela - de novo na Pedro II, 680, entre Lauro Sodré e Magno de Araújo. Anos se passaram, mais filhos vieram... tia Helena casou-se com Djalma Maciel, construiu uma casa anexa a sua, vieram Júlia Antônia, homenagem às mães e avós, do pai e da mãe, Josenilda Maria das Dores, com vela nas mãos, nasceu fraquinha mas assumiu os olhos graúdos da Ninita, olhos de menina séria; Ângela Maria, em homenagem à cantora nasceu e no noutro dia o velho Pompeu morre; veio Maria de Lourdes, mais uma Lourdes entre os Maués, João Pedro, homenagem ao Frei fundador da Ordem das irmãs Capuchinas do INSA (citação da Eufrásia), Auxiliadora Maués, homenagem à padroeira de padres e irmãs carmelitas INSA de Cametá, Márcio Leno, época da jovem guarda, do Leno e Lílian; Jessiana Regina, caçula rainha: todos em casa e, finalmente, George Hamilton, temporão, nome de ator... George, o mais Heitor dos filhos, na maternidade e parto normal. E a casa? Uma casinha de madeira, de telhas francesas, com uma sala de estar, de todos durante o dia e, de dormir, dos homens mais velhos, durante a noite, um cenário rico de detalhes: piso bicolor em acapu e pau amarelo, um visual listrado que povoa nossa mente como em um teclado de piano alternando o ébano e o marfim em madeiras da região, duas janelas na parede frontal com trancas e taramelas paredes laterais com janela à direita e porta à esquerda, mais trancas e taramelas...desta porta se podia ir ao varandim (varandio PARA NÓS) que ocupava a um terço da parte frontal do nosso chalé, em formato de um L a debruçar-se da parte inicial da porta até um ponto entre as duas janelas. Na sala ficava a primeira televisão, presente do amigo Cohen do Zé, a primeira eletrola à pilha, os elepês com as 14 mais, Renato e seus blue caps, os Beatles brasileiros, Jovem Guarda e Roberto Carlos... O forro da sala era aparente e os móveis antigos, surrados pelo uso e desuso das crianças... Na parede entre as duas portas, no alto, o rádio à pilha, grande, bonito, amado, ouvido diária e noturnamente por Heitor... jogos de futebol, programas chiados e sibilidos nas freqüências da rádio... músicas antigas...Saxofone, por que choras? Noite em Moscou...Alma para conquistar-te, coração, para querer-te e vida, para vivê-la, junto a ti... o dia inteiro a cantarolar, e pela manhã para ouvir radionovela, O Direito de Nascer, Júlia contou em conto.
Da sala para o quarto maior, passava-se pela alcova através da única porta para chegar ao terceiro cômodo. Nele havia 1 guarda-roupas com 2 portas, 4 gavetas (2 grandes e 2 pequenas) na parede dos fundos; 2 janelas opostas nas paredes laterais; 1 cama de casal com os pés de barro e, no único armador de rede do quarto repousava a matriarca. Logo depois por uma única porta chegava-se ao terceiro cômodo. Nesse grande cômodo (para nossos olhos) de 2x2m e 2 grandes janelas, entrelaçavam-se à noite as redes, lençóis, mijadas na rede, humores, sonos entre um sonho e outro de Pedro, Dora e Márcio até a década de 60. Na parede de fundos decorada com imenso painel de colagem feito com fotos de galãs de novelas da época retiradas das revistas folhetinescas devoradas pelos olhos de meninas sérias das irmãs. Passávamos depois para a cozinha, decorada com uma geladeira Gelomatic de um tom de vermelho rutilante, uma mesa grande em madeira crua com quatro ou cinco banquinhos também em madeira (onde ficamos eu e Dôra ficamos muitas vezes de castigo amarrados), fogão Alvorada na cor azul cobalto, além de pratos, panelas, talheres e copos de louça antiga e alumínio ou plástico mesmo, todos perfeitamente higienizados. Da ampla janela de fundos contemplava-se o quintal e suas velhas árvores de cupuaçu, côco, cuieira, ingá e biriba (partido por um raio que o deixou semi-morto) seguidas por um histórico limoeiro. Depois outra de araçá, côco de novo, algodão e urucum (cujas flores falam por si só de uma beleza ímpar desse pequeno pomar de sonhos de nosso quintal) e, por fim a raríssima árvore de ginja (Júlia escreveu sobre ela um belo conto). Era lá no quintal que costumávamos passar horas infindas num misto de sonho e sonho inventando casas imaginárias sem teto, paredes nem nada; bicicletas em pedaços de madeira suspensos, cavalos em palmas secas de açaizeiro enquanto os circos e missas eram montados no quarto... tudo tomava a cor de vida que sonhássemos. Um detalhe curioso era que na lateral esquerda da casa um corredor fechado servia de quarto ao patriarca à noite, alcova dos pais, e, durante as tardes era onde as meninas passavam horas infindas inventando casas mobiliadas com recortes de encartes de jornais e revistas e dobraduras de papel para criar brinquedos imaginários.
Ninita desistiu do trabalho fora de casa, como professora no Vicente Maués... não havia como conciliar crianças e trabalho fora...o jeito era trabalhar em casa... como? Como em Lya Luft, precisa sonhar em todos os cômodos renunciando: “renuncio às palavras e às explicações. Ando pelos contornos, onde todos os significados são sutis, são mortais. Não quero perder o momento belo. Quero vivê-lo mais, com a intensidade que exige a vida: desgarramento e fulguração. Então me corto ao meio e me solto de mim: a que se prende e a que voa, a que vive e a que se inventa. Duplo coração: a que se contempla e a que nunca se entende, a que viaja sem saber se chega - mas não desiste jamais”.

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GENEALOGIAMOR - Cap. III

Começou com o menino José Heiná: de Heitor e Eglantina, em1945, na casa da Siqueira Mendes, em Abaetetuba. Ninita com 18 anos e Heitor com 28 (dez anos de diferença). Heitor largara o comércio de pequena cabotagem à vela e estabeleceu pequeno comércio em sociedade com um primo, também na Pedro II perto da “beira”. Não deu certo. Pequena estiva, falta de experiência, má administração, faliu, quebrou. O que fazer senão voltar pras terras do sítio no Furo do Pai Pedro... para a casa paterna na região das ilhas da costas de Abá, Maratauíra de nome. Ninita sequer sabia nadar...iria ser uma ribeirinha...teria de gapuiar, encher água nas cuias e latas, acender as lamparinas, cuidar do filho pequeno, andar de canoa...amassar açaí...
O menino José dava gosto de ver... ágil, perspicaz, antes mesmo de completar dez meses de vida, já andava no casarão da Vó Antonia e vô Horácio. E por lá, à beira do rio, inteligente o garoto, aprendeu a ler cedo, fora com a professora-mãe, antes dos 3 anos.
Depois vieram Heleno, em homenagem à tia Helena, Joseleno, José mais Heleno. A primeira menina, Joserlina nasceu em outra casa, no rio Maracapucu, em sua parte alta, na casa do finado Afonso, quase varando para o Jurupariquara, casa escola para a mãe professora Ninita que era sabida, tivera a melhor educação no colégio das freiras em Cametá... Lá também nasceu Josenor... e a mãe tomou a decisão : vou para a cidade. Colocou as crianças num pequeno barco a motor, de madeira, sem coberta, nem salva-vidas, sem eira nem beira... nem segurança na baía, perto da Ilha da Paçoca, segurança nenhuma, só mesmo o “valei-me Nossa Senhora!”. A pior tempestade de sua vida... momentos de rapidez sem medida, sem tempo para refletir... se tempo tivesse talvez dissesse como Cecília Meireles “ó meu Deus, isto é a minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...”
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GENEALOGIAMOR MAUÉS. Cap. II

Ninita virou mulher, mãe, exemplo de paixão pela vida e pelos filhos, alguém que sempre combateu e destruiu a trivialidade superando seus limites numa necessidade ardente de ser original; Heitor, seu marido, moreno bonito e gentil, homem raro, exemplo de caráter, sem espantos diante dos sustos da vida, de uma calma e tranqüilidade macias para sobreviver sem vaidades a tudo o que chamamos ilusões. Assim foi o casamento. Abaetetuba seguia seu curso municipalista. E nos rios que são ruas, costa Maratauira, rio Maracapucu, furo do Pai Pedro, Casa Branca, Engenhos de Cana, comerciantes com canoa à vela, pequenas usinas de beneficiamento de azeite de andiroba, borracha, sarnambi, ucuúba, cacau, coisas que a natureza presenteava, o homem colhia, vendia e deixava a vida seguir seu curso.
Heitor Maués, filho mais velho de uma família de agás maiúsculos, ... Heitor, Helena, Hibernã, Hilda, Hélio, Hamilton, aos 17 anos, perdeu o pai Horácio, comerciante que navegava em canoas à vela – regatões - alugadas ao proprietário Raimundo Oliveira, Dico Oliveira para os íntimos. As viagens eram para o chamado Baixo Amazonas e para a região das ilhas do lago Arari, especialmente a Ilha de Marajó, para onde levavam sal, açúcar, estivas em geral, louças de barro e, especialidades do Município como cachaça, aguardente de cana de açúcar (famosa como branquinha, a azulzinha) cuja fórmula somente os engenhos de Abaeté a tinham. Na volta da viagem, lá vinham as canoas pilhadas com pirarucu salgado, jacaré, mais peixes da região, comércio feito para as grandes casas de Belém ou Abaetetuba.
Abaetetuba dos anos 40, sem luz elétrica, sem ruas asfaltadas, com seus caminhos virando ruas, avenidas. Adoecia uma criança? Leva pro Seu Contente ou pro SESP! Vai nascer um filho? Chama a Zita Margalho pra pegar a criança. Já nasceu a criança? Batiza na Igreja da Conceição, na praça matriz, essas coisas todas... tal e qual...
E a família do Heitor e da Eglantina Maués ia crescendo de dois em dois anos, a pasta Kolynos assinalava os enjôos, Ninita esperava criança. E assim foram 17 vezes, dessas todas vingaram 14 filhos, partos normais, os treze primeiros de parto em casa: quarto fechado, parteira atenta, Heitor ansioso do lado de fora, desviando dos sapatos que Ninita lhe jogava caso metesse a cara na porta...nasciam as crianças...sete dias no quarto, 40 dias dentro de casa...galinhas gordas com pirão escaldado...hum que delícia....! Mais um bebê e só o último na maternidade das irmãs xaverianas! Matemática registrada: foram dez anos e seis meses de gravidez, ou seja, trinta anos de gravidez, de 17 aos 47 anos, em média um ano e meio de amamentação para cada filho, sendo exclusiva até os seis primeiros meses de vida, além do ato solidário de ter sido mãe de leite de outros.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

GENEALOGIAMOR MAUÉS. Cap. I

Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a. Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, e este abandono para além da felicidade e da beleza” (Cecília Meireles).
Já escrevi que sou o 12º filho de um casal de bravos, donos de uma prole de 14 no total. Desde que passei a me orientar melhor no tempo e no espaço, também passei a não temer as adversidades, mesmo com algumas peles a menos, como meus pais assim o fizeram. Nascemos de Madalena nosso grande amor. Só Madalena, não! Nome de princesa Eglantina Maria Madalena, Ninita, na infância. Amiga da Laélia, Oscarina e Cleópatra suas colegas, sempre andavam juntas. Onde andarão? Dela sabemos que nasceu sob o signo de Leão no mês de julho de 1927, na cidade de Cametá, a mais cabana das cidades paraenses.
A infância foi pontuada por cuidados maternos que iam dos longos cabelos penteados, em casa, ao estudo da língua francesa, no colégio das freiras. Eglantina, Ninita, com dez anos, perdeu sua mãe, Júlia Amélia, parto difícil de bebê natimorto. Restaram os irmãos mais velhos Francisco e Maria José, e os menores, Expedito e Klinger e, já sem mãe. Klinger principalmente passou a dormir no peito de Ninita, a menina de 10 anos. E quem seria agora a mãe de Ninita para que ela fosse a mãe dos pequeninos senão a mãe do céu, a interventora de toda a esperança, porta do céu, rainha dos homens...
A menina de grandes olhos e pernas bem feitas foi interna no colégio das freiras, o INSA de Cametá - Instituto Nossa Senhora Auxiliadora. Lá se podia dizer Je vous salue, Marie, pleine de grace, priez pour nous, pauvres pêcheurs ... lá Le Seigner est avec vous ...e Marie era sempre a notre dame. (SALOMÃO LAREDO – escritor, a Dôra vai ver os arquivos de Cametá). Lá, a menina se fez mocinha, uma Ninita, quieta, tranqüila, fervorosa, coração e mente partilhado entre o céu, a Igreja e a terra, a casa onde não mais havia “mamãe”... Como não pensar em ser freira, em não se entregar a Jesus e a Maria como sua filha mais obediente e confiante?
Os planos de Deus ah, os planos de Deus: o certo e o torto pelas linhas tortas e certas trouxe-lhe um amor, um amor pra mais de 53 anos de vida comum, um amor para atravessar muitas maresias...onde? Ali, na casa do pai da segunda esposa de seu pai...D. Ormina Nery, filha do Filo Nery, onde seu pai, velho Pompeu, arigó malino, resolveu se casar pela segunda vez...desta feita em Abaetetuba. Em Cametá, ele fizera a vida, Pompeu dos Santos Reis Machado, paraibano, arigó malino, comerciante rico estabelecido nas primeiras ruas de Cametá, que já caíram ao remexer de Cobra Norato como o quer o imaginário amazônico...
Mais seis anos do segundo casamento de seu pai, Ninita se casou, aos 17 anos, na cidade de Abaetetuba, na tarde de 25 de dezembro de 1944. O que era casamento? Não, ela não tinha certeza ainda de nada, não sabia o que era casar e por isso chorou, quase não saiu do quarto para a cerimônia religiosa. Mas como falei “eram os planos de Deus”, seu noivo era o viajante Heitor do Carmo que a escolheu pelo belo par de pernas pelas quais se apaixonou. Ele sempre comentava, eram lindas as pernas da Ninita. A cerimônia religiosa aconteceu, na residência do padrinho Sr.Romeu Quaresma, uma casa de madeira da Pedro II, quase pegada à residência de Chiquinho e Lucinézia Paes e, a civil, no Cartório da Praça da Bandeira. Passou a chamar-se então, Eglantina Maria Madalena Maués suprimindo seu sobrenome de origem Leão Machado e, formando, a partir daí uma árvore que segurou todos os ventos fortes e as intempéries, durante 53 anos.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

POEMAS DO DESMANTELO DO CAMPO DE ESPERA



Está pronto! Em março publico meu segundo livro de poema com o título desta postagem. Nele o prelúdio avança sobre imagens largas que a palavra cria, recria, silencia e ressoa. São palavras aladas, diria. São asas debruçadas sobre horas intermináveis de poesia em rituais e cadeias que logo confundem-se com borboletas sobre uma tarde lisa-linho em desalinho tão somente como diria Júlia. Desintegram-se, volateiam em círculos e pétalas na iminiência do devir da aurora boreal ou em um crepúsculo sem par ou no meio de uma insone noite. São estrelas cadentes então? São luas submarinas? São mergulhos de sol em pôr? Sei que espelham-se num leito sobre instantes-já de esquecimento e levitação. Degustem!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

“não é a ilha”, “não é a praia”. “É o mar, a outra margem”.


Como se parte nesta vida a vida. Partes-se em pétalas de rosas numa brincadeira de bem e mal me quer, parte-se em mil ondas a partir de um ponto na água, parte-se em rios, lagos, braços e abraços de rios. Parte-se em dores na carne sentida por rios de quimioterapia. Parte-se em filetes nervosos que se radiculam do disco à polpa digital. Parte-se em Anas – que sempre se abrem em sorrisos de Cristinas cristalinas, Luísas de luzes, Cláudias de harmonia, em Roses – rosas que e partem no mar, em Claras que abrem as neves e as gotas da chuva. Enfim, morrem sobre a terra e sob a Terra alimentarão bons frutos para manter sempre acesas as chamas da vida.
Romantic, eu passava horas no cemitério de Abaetetuba no meio de minha adolescência. Em silêncio buscava alguns sons que toda aquela terra adormecia em silêncio. Fiz isso em São Paulo também e não encontrei nenhum silêncio. Acho então que é o território-afeto que mais nos silencia. Silêncio em Max. Max silenciou... “não é a ilha”, “não é a praia”. “É o mar, a outra margem”.

CODINOME BEIJA-FLOR: Afinal, em tempo de carnaval, tempo de contar casos, acasos e lorotas.


Este texto compilei de depoimentos de José Heiná, Pedro Maués e Heleno Maués. Registro aqui como forma de homenageá-los pela criatividade.

Estava a imaginar que sentido há nos apelidos com os quais conhecemos certas pessoas.
Lembremos alguns deles e, quem tiver conhecimento do significado, não economize palavras, é só encher de comentários que o texto agradece.
Lembro do ZAN, irmão da Zaíra, filhos de BEATO, um eterno batedor de açaí que nunca foi visto freqüentando qualquer templo que não o da vitaminosa, como chamavam as batedeiras de açaí em Abaeté. Nem o ZAN era zen nem beato um fervoroso fiel.
E o SETE ORELHAS, coitado, um pobre andarilho com a eterna trouxa nas costas a caminhar em direção ao mercado Municipal e retornando, lá pelo meio dia, cheio do chá branco na cabeça, a falar mal de todos e a ouvir a molecada chamá-lo pelo apelido, embora, como é normal nas pessoas, apenas duas fossem as orelhas que carregava.
A PAGOA deveria ser pagã, ou não? Pior. Chamavam-na de pagoinha, um diminutivo que não combinava com as fartas nádegas que portava a filha de D. MARIA SETE com seu IRAQUE. Maria Sete, só pode ser uma referência ás pragas bíblicas, ditas em número de sete, vez que dona Maria, vez por outra, rogava praga para qualquer moleque das redondezas. IRAQUE sempre foi uma corruptela de Heráclito, o marido tocador de clarinete na banda Carlos Gomes, colega de outro músico com outro não menos interrogativo apelido: O BESTEIRA. Este é para o qual jamais entendi o significado.
Em frente, dona NANINGA, oh apelido indefinido, jamais trazendo qualquer explicação, mas...
Meu cunhado, Higino de registro, era chamado de PEITO DE MUCURA BRANCA, outra referência que dá sentido à incógnita da referência a apelidos abaeteuaras.
Os irmãos SURRÃO, CAPELÃO e BABI, já os conheci assim e somente CAPELÃO tinha algo a defini-lo: tinha sido seminarista por algum tempo e, quem sabe, algum dia seria capelão de alguma orada distante e erma.
Os vizinhos davam mais interrogações: SAPO CHATO, NOSPLATA, GUDERO, NENÉO, CUTACA e ENGOLE TORO.
Ora, nem todo sapo é chato mas penso que aquele o era, quem sabe. NOSPLATA? O que é isso????????? GUDERO ??
CUTACA, talvez por ser esguio, fino e resvalar pelos escaninhos menores possíveis, qual uma verdadeira cutaquinha.
ENGOLE TORO seria uma referência ao pescoço alongado, ossos da face proeminentes e olhos esbugalhados, tal e qual de um grande amigo de agora. Deixa prá lá.
PUGUINA (assim a grafia?) morreu e não me deu explicação para o apelido. Era a graça para as piadas nas rodas de dominó.
ESPANTA ROLA, morador perto do campo de pouso, talvez referenciasse a fama de abater à baladeira ou mesmo a pauladas as rolinhas que abundavam (opa!) no antigo campo de aviação. Hoje, poderia ser entendido de outra forma.
CURIÓ, MUÇURELHO, GABIRU, PACAMÃO, PACA, pai do PIROCA, ANTUBO e NHORÉ CEBO, parceiros em geral, exceto PACAMÃO, muito depois entendido o porquê do apelido ao olhar um peixe com esse nome (quase) no mercado de São Braz. As caras dos dois eram iguais.
NHORÉ dizia que a origem de seu apelido era indiana (nhaaam, nhaaaaaaam, nhaaaaaaaam) o mantra que explicaria a origem. Nada crível, porém.
Por aí vão mais muitos outros cuja origem, fundamento ou explicação são sempre reticentes, nada científico, como por exemplo o GAMBITO, do qual diziam ser possuidor de uma terceira perna que daria para fazer descanso de carroça de burro, essas coisas que não são provadas cientificamente. Quem sabe?
N o time de futebol, a escalação em sistema antigo, goleiro, dois zagueiros, três na intermediária e cinco no ataque, tínhamos: BACU DA DEDAME, GOELA, GABIRU, NHORÉ e CULHÃO. BORRACHINHA, ANTUBO e BENÉ DA DUCHICA. TATU, CURIÓ, INCHADO, CHEIRA SACO e DUDINHA ou ainda o BREU, neguinho bom de bola, de gole, de dança e de porrada. Quer mais do cara?

Alguns apelidos são apropriados e refletem nitidamente a pessoa. Ou em seus dotes físicos ou comportamentais. Abaetetuba é rica em produzir codinomes e, em alguns casos, é muito difícil dissociar a pessoa do apelido. Até mesmo os funcionários dos Correios identificam as correspondências mais pelos apelidos do que pelo nome propriamente dito. Em outros casos, partimos pros famosos apelidos que refletem exatamente o contrário da pessoa que está sendo apelidada... como os apelidos sapo da cuieira... tem muitas pérolas lá por Abaeté: O Bebe do Preto que é branco., o Giz que é preto,o Bito Faquiado negão esguio que tentou se jogar da caixa dagua, o Padre Chumbinho e sua moto a Até no Meio (que segurou o bilau do cara e disse a frase do seu apelido).
Vou repassar alguns apelidos que povoam Abaeté. Para os dois lados: ou caindo como uma luva ou refletindo o contrário, tornando, assim, uma espécie de Fernando Pessoa e seus heterônimos. FELIZ: o eterno borracheiro ali da Rua Magno de Araújo...Podem procurar no quarteirão da casa dele quem é o cidadão ANTONIO FERREIRA...ninguém sabe quem é...Já o Feliz...(muito embora sua cara não denote muita felicidade...parece que vive chupando limão e fazendo careta). ESQUECIDO NA Q-BOA ou SURUBIM: precisa explicação???CARA DE DEFUNTO AMANHECIDO: um rapaz lá da Francilândia...magro, esquálido e muito pálido, sem uma gota de sangue nos lábios...BOCA DE DERRAME: sujeito pacato lá do Algodoal, que tem a boca um tanto quanto torta pro lado esquerdo.DEIXA QUE EU PAGO: um cidadão que é amputado de um dos braços e que anda com a manga comprida da camisa devidamente acomodada no bolso da calça...Onde ele chega a galera reconhece. Parece que vem sempre metendo a mão no bolso pra pagar a conta...ROSINH : uma conhecidíssima lá da Colônia...Dizem que essa rosa não é flor que se cheire...SEU MATERNO: esse morreu e eu não encontrava explicação para o apelido...Era homem, mas trazia consigo a alcunha de materno...ROCK DIAS: saudoso amigo adorava tocar carimbó, merengue e bregas em seu programa matinal na Rádio Guarany, descabendo por completo o gosto pelo rock and roll...JOÃO BENTO: parece que jogou voleybol com o Zé Heiná...Dizem que ele nunca foi batizado...MILICO: um senhor que morava lá na Rua Lauro Sodré e que tinha televisão em sua casa, para onde o Pedro Maués deslocou-se inúmeras vezes pra assistir A ponte do Suspiro...Dizem que ele nunca passou na porta de uma caserna, mas ainda assim era conhecido como milico...PIRANH : era o Humberto - ponta direita velocíssimo e driblador da Seleção de Abaeté...Um detalhe apenas: não tinha um caco de dente sequer em sua boca...O famoso sorriso desprevenido...CARA ERRADA: funcionário do Banco do Brasil. Dizem que ele não estava esperado pra nascer...Seria uma menina. Quando a mãe dele o pariu, uma alma logo vociferou: "olha lá, a cara do nenê tá errada"...Pegou cara Errada até hoje...BACENTO: um robusto promotor de festas e eventos lá do bairro de Santa Rosa...É bojudo.Tem uma protuberância abdominal que justifica o fato de acharem que ele tem um baço bastante avantajado...CARA DE PORCO COM PAPEIRA: Ribamar ou Riba para os mais chegados, era motorista de uma Kombi que prestava serviços pra Eletronorte...Era roliço e papudo...Como um porco mesmo...OSGA COM LABIRINTITE: jogador serelepe da equipe do Jairlândia...Corre meio adoidado em campo, embora as vezes acerte o alvo...Já repararam uma osga no momento de dar o bote???CU DURO: centroavante do Algodoal e camaroeiro nas horas vagas...Parece que não tinha guizo...Pra dar uma volta nos zagueiros era aquela demora...Tinha as ancas um pouco proeminentes...CU DE PAU: filho do Cutaca, que virou CUDÉ para os mais íntimos...Não sei mesmo a origem...FAMÍLIA DO RAIMUNDO SERVINO (Tio da Dira Paes).
TIO TRAIA : parece que sempre traía a confiança das pessoas.
ARARA - acho que era pela feiúra mesmo.
BIRU (na verdade ele era o Bilu- Bilu da mamãe...Virou Biru uma vez que foi almoçar no restaurante do Nishimura. Ao vê-lo, o nipônico tascou: Bem vindo Biru...Pegou até hoje e é o mesmo cara que a mulher apenas aponta o bico para apresentá-lo.Haja bagagem do Biru...; BOÉ: parece que sempre foi uma espécie de instrumento na mão dos outros...Era Clarinete, depois virou flauta, mais tarde Oboé e, por fim, Boé mesmo.
QUIBITA, BUTETÊ, JABÁ E TURU: os quatro atacantes da família...Ora bolas. Devemos é perguntar para os mais velhos. GALO CEGO ou FANIQUITO (esse nem precisa explicar).ZÉ BORÓ : guitarrista dos bons. Começou nos Muiraquitãs (parece que tocou com o citado Besteira). Depois do final do grupo, criou uma banda própria: the pop som, cujo cantor era o TCHÊ (rsrsrs)...fez carreira solo e até hoje ainda toca por lá por alguns borós...MARCHA RÉ: amiga e parenta do seu Dedé...Andava o tempo todo numa marcha bem lenta , quase prá trás..MEU COPO: jogador de futebol lá do cata-vento...Só anda com um copo a tiracolo...depois da pelada ele vai logo dizendo: ninguém toca no meu copo. pegou...MANOEL DO JEEP: Alcunha do pai do George, professor da UFPA.
MIOJO REQUENTADO: uma bossa que eu arranjei há um tempo atrás...Foi almoçar na nossa casa e não esboçou nenhuma reação com os músculos da face...Aliás, só os mexeu na hora de traçar umas 4 fatias de picanha...Alguém a olhou tentando achar alguma graça em seu jeito. não encontrou e tascaram: égua, essa moça parece Miojo requentado de tão sem graça...E era mesmo. Red card pra ela na segunda feira....
E de ressaltar também, Labibi, caxita, e porque esquecer do Pororoca, que quando dava aquela rodada dizia; baunitaaaa.Depois vem mais, agora Tira e te afasta. Já to botando a vassoura atrás da porta rsrsrs...ai ai ai...estresstab, maracujina, berocal por favor...