Poemas do desmantelo do campo de espera
Márcio Leno Maués
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Novembro de 2008
Primeira Edição
Coordenação editorial: Gláucia Helena
Editor: Georges Martins
Produção gráfica: Alexandre Campos
Rio de Janeiro - Brasil
Novembro de 2008
SUMÁRIO
Desmantelo I: em levitação
Peso como a luz entre nomes. . . . . . . .11
Sobre as nuvens. . . . . . . . 12
Aromático. . . . . . . . 13
Névoa frater. . . . . . . . 14
Insone. . . . . . . . 15
Le cri de couer. . . . . . . . 16
“t” para Lispector . . . . . . . .16
Vôo silente. . . . . . . .17
Manhã-flor. . . . . . . . 18
Terra aranha. . . . . . . .19
Entredentes. . . . . . . .2
Gênesis. . . . . . . .21
Luminoso marco zero. . . . . . . .22
Céu perfumado. . . . . . . .23
Via láctea de estrelas. . . . . . . .24
Elevação à sombra. . . . . . . .25
Com saudade de si mesmo. . . . . . . .26
Espelhismos ao vento. . . . . . . .27
Fractalis. . . . . . . .28
À sombra. . . . . . . .29
Desmantelo II: água sobre água
Sol’eágua. . . . . . . .33
Absinto. . . . . . . .34
Sopro cinzametálico. . . . . . . .35
Tanto mar. . . . . . . .36
Espelho líquido . . . . . . . .37
Solstício. . . . . . . .38
Ecos na manhã fria. . . . . . . .39
Olhos de Domingo. . . . . . . .40
As curvas das horas. . . . . . . .41
Febre a trois. . . . . . . .42
Eclipse. . . . . . . . 43
Nervuras em contorções. . . . . . . .44
Sol em chuverno. . . . . . . .45
Poema inacabado. . . . . . . .46
Brisa licorosa. . . . . . . .47
Rebrilho. . . . . . . .48
Desmantelo III: mimesis
Espelhos. . . . . . . .51
Para Ledusha. . . . . . . .52
Beijo em ecos. . . . . . . .53
Memória do corpo. . . . . . . 54
Tempo em mimese. . . . . . . .55
Humores bivitelinos. . . . . . . .56
Efeito Tyndal. . . . . . . .57
Palavras em púrpura . . . . . . . .58
Pulsos . . . . . . . .59
Pretérito-imperfeito-tempo . . . . . . . .60
Vento âmbar-gris. . . . . . . . 61
Abissal. . . . . . . .62
Jogo da paixão. . . . . . . .63
Aleluia Clarice. . . . . . . .64
Obscuro nada. . . . . . . .65
Risos rios de giz. . . . . . . .66
Jade. . . . . . . .67
Cadafalsos. . . . . . . .68
Brasas de dentro. . . . . . . .69
Aos quartos. . . . . . . .70
A ponte. . . . . . . .71
Dúctil mão distraída. . . . . . . .72
Métrica. . . . . . . .73
Desmantelo I: em levitação
“Tra um fiore colto e l’altro Donato/
l’inesprimible nulla”. (Ungaretti)
(“Entre uma flor colhida e outra ofertada/
o inexprimível nada”)
PESO COMO A LUZ ENTRE NOMES
Peso como a luz
não como a solidão dos outros.
No meio dela veja sons, músicas e lembranças não ditas.
Olho em volta de mim,
em volta dos teus pés
e tudo flutua como a luz
que se reflete para dentro de nós mesmos.
Vibra os cabelos e até as digitais
desenhando sombras sob sombras
para dizer nomes,
para fazer sentido outro que não tenha peso de nada.
SOBRE AS NUVENS
Um alvor de esquecimento
hoje se desrealiza por entre as nuvens silenciosas e,
anuncia-me dos escombros que passaram por ti sem antes avisar-me.
Eis o silêncio
que remove a pele exausta e comove-se branco e quase intocável
no fundo do espelho...
...e desespelha-se sob as sombras.
AROMÁTICO
Desespelho-me aromático
para reencarnar rosas
onde passas
rápido como o neon
– um susto? –
sem sol e sem sul.
Nascem silêncios
sem limo e verbos
entre nós e o esquecimento
que habitamos tão distraidamente.
NÉVOA FRATER
Um espasmo frater
perde-se em ecos
garganta adentro
nos dias de poesia.
Salivo nuvens-névoas
na epiderme
e nas entrelinhas fátuas do tempo
para inventar outros céus.
Sonolento,
repouso irisado e úmido em silêncio.
INSONE
Um pardo plágio de noite minguante
vem de longe
e habita o céu
camuflando-a em sono.
Entrega-se a um lugar longínquo no espelho
e, quase em transparência,
dobra as esquinas da insônia
declinando estrelas
para enfeitar-me a pele
sob a sombra de um sonho entre parêntesis.
Perito, acordo-me em dobraduras
minguando mimos de amor.
LE CRI DU COUER
Ademais fizessem névoas
teus olhos – atemporais sensores –
de fuga para o mar,
pérolas nunca mais chorariam
sobre meus ombros – medrados tensores -.
O céu cetimconsolo
espanta-se hoje
com a veloz queda de estrelas
que promovo em tua direção nos umbrais de setecentas luas.
Sob o céu sonolento dos gritos do coração
nenhum gosto insigne aflora
o que em mim por dentro
por ti desespera.
“t” PARA LISPECTOR
Este poema é para ser lido de longe,
da distância de um avião em alto vôo.
Vês?
As palavras crepitam de tão convulsivas.
Ouves?
Os sons que saem das folhas secas e esmagadas
ardem nas fogueiras que entrecruzam no ar,
o “t”granítico
da eternidade
e do instante-já.
VÔO SILENTE
O mágico da plumagem
no teu vôo pássaro
inventa palavras aladas aos meus olhos
para cântaros à distância encher.
Pudéssemos
orquestrar o infinito que se desnatura hoje
(alheio aos uivos da poesia),
os púcaros da paixão,
em sobrevôos
por entre nossas relvas,
nunca mais chorariam silentes.
Murmurantes, se tanto,
deixariam o silêncio
outra vez.
MANHÃ-FLOR
O pavor
Passará amanhã.
E o amor
Será sempre
pássaro em manhã-flor
TERRA ARANHA
Trançando os fio de seda
aos do tempo,
espera-se aranha
da terra
a leveza.
ENTREDENTES
Gotas de surpresa no olhar atento do poema
comovem silêncios
que se julgam rasurados
pelo mundo poroso da insônia
onde vestais são vetores de sucção.
No areal dos dias,
as notações nos muros morridos
são a real surpresa
de sopros que me varrem em direção às dunas
debruçando os olhos
nos degraus do tempo entredentes erodido.
GENESIS
Projeto-me em vôo
aos abismos sucessivos das noites e dias
para diluir as inquietações do percurso
até a gênese de tudo -
que se apresenta suspensa -.
Vertiginoso,
descubro-me
coração pulsante
houvesse lírios
no campo de esperas.
LUMINOSO MARCO ZERO
Contempla-me um céu
povoado de olhos-estrelas com piscadelas marotas.
Propõe um brinde com a lua
que se desenha uma boca chinesa.
Vagalumes
são as únicas lanternas
a guiar poemas
que acendem os luminosos
dessa noite invernal aqui do norte no marco-zero,
ENTRE O 3 e o 0 (ZERO)
em TIC-TACS incansáveis
dos relógios-grilos.
CÉU PERFUMADO
Murmuram noite
a pedra,
o sangue
e o tempo
que somem de ti
para sempre.
Ao fundo,
bem fundo,
olho no olho,
no frio se exaure o céu
que por ti se perfuma.
VIA LÁCTEA DE ESTRELAS
Dos atritos aos detritos,
a via é láctea de estrelas até o coração,
ventando em nossos olhos sílabas de areia,
neblina
e
límpidas mentiras.
Neste poema
a brevidade trai a força da gravidade frente a qualquer abismo
e, atira-se sem asas,
ao fundo bem fundo do coração.
ELEVAÇAO À SOMBRA
O que souberas de mim
fora a sombra das palavras
que se acendem e apagam.
E, para que tudo se refaça
no instante-já tremulo
liquifico as luzes em redor das sombras
no suor abundante
de outras palavras que vibram de costas
para o mundo obscuro.
Esse caldo escorre em ecos-reflexos de sol na água
e, se descobre tremeluzente
um lago que se eleva
sem limites.
SAUDADE DE SI MESMO
De poro em pólen
constroem-se palavras-pétalas
sobre a pele (a sua)
desnudando-a em poemas.
Nascem fluxos-floemas
incrustando nos olhos (os meus)
e olores de uma saudade de si mesmos
ao relento
no trajeto até o céu enlunado de ais.
ESPELHISMOS AO VENTO
Arfantes,
os olhos prendem o poeta ao tempo:
espelhismos ao vento talvez digam mais
sobre a sangria que esse verbo hemorrágico – o coração –
(soluçante e subterrâneo)
debruça sobre páginas afora.
Nervos melânicos – palavras –
sobre a pele incinerada,
o tempo sub-reptício
comovem.
FRACTALIS
Meu instante de poeta
saliva sobre as palavras
que vicejam sóis,
verbos
e
amores em fractais.
Devoro a brevidade
pela tarde toda
ao relento
em algodonosas sensações de junho.
Esse amor em mim,
é por ti hoje
a fatuidade
que me refaz
em parábolas
farfalhando lírios e brotos,
estremecendo o peito
e, confundindo-me
a serenidade de um rio
(e seus orvalhos)
com sóis sempiternos.
Tudo palpita
para celebrar teu nome
em imagens fractais.
À SOMBRA
À sombra de um rio
de mim mesmo parte o sol.
E, nele outras claras partidas,
idas e vindas do céu ao chão
entre amares e amores.
31
Poemas do desmantelo do campo de espera
Desmantelo II: água sobre água
“Os vocativos
são o princípio de toda poesia”.
(Adélia Prado)
SOL’ÁGUA
Entre o vento, sol afora
e janela adentro
revoam as asas entreabertas
do silêncio a esmo,
seco e árido do teu rosto.
Antes de virar memória do deserto
seja sol sempiterno
contra o outro lado
da água de mim.
ABSINTO
Talvez seja
o absinto que carregas nos olhos
o sensor que me embriaga,
(pelos olhos também).
Nas noites de palor e de estrelas sem par
quero tuas íris sempiternas (como dois oásis)
a me seduzir sem piedade sob os ares opressos
nesta era quase sem sentidos.
SOPRO CINZAMETÁLICO
Nenhum poema trinca esta noite.
Céu cinzametálico,
são dicas de manhã nebulosa, creia.
O óbvio é tão mordaz
que sopros povoados de ausência
logo brotam no seio das mãos.
Meu hipocampo vaporoso
é um vaso sem planta diria, hoje.
Acordo-me assim com um verdor de absinto nos olhos
que nem sinto enfim o cristalino
neste poema sobre as nuvens,
sob as sombras.
TANTO MAR
A lua
que tive nos braços
por toda a noite,
sangrou rosas no peito da manhã
e, espelhou-se
nas gotas de orvalho,
que rolaram dos teus olhos
de puro desalinho
e recôncavos de tanto mar.
ESPELHO LÍQUIDO
Água sobre água,
eis a textura da pele
na íris da noite.
Estremecidas palavras
vêm encher de epifanias
as ânforas do céuespelholíquido
que madrugada afora
deságua o corpo todo.
No dia seguinte brotam nervosas
outras águas,
de novo sobre águas,
agora sob o silêncio de filetes de chuva
sobre as heras
ao ponto perdido
no azul muro da memória em naftalinas.
SOLSTÍCIO
Germina no centro de tudo
um solstício
que não diz o nome.
Camufla-se de inverno por horas a fio.
Vence o cansaço dos olhos
e, errante, expõe-se,
sono sobre sono fugidio.
Aonde quer ir?
De onde vem?
Tão lúcido... tão pálido: transpira.
Vem das águas que estrangulo
entre as folhagens que o furor declina inominado.
Qual apego ainda o sustém?
ECOS NA MANHÃ FRIA
Mais um deserto
desenha-se em ecos nesta manhã.
Tempo e movimento
seduzem os cílios no ritmo das cortinas.
Navegar na memória hoje
são só silvos
que dedilham as nervuras da saudade
e o coração vitrificado pelo frio
tirando o sorriso do caminho.
OLHOS DE DOMINGO
Folhas em branco
aos domingos
são imensos
olhos azuis.
Poemas nascem
como doces ciscos de saudade
que os alegram em vermelho.
CURVAS DAS HORAS
Por uma vírgula,
ouço uma por uma
minhas pulsações
afiando a lâmina dos sentidos
à noite toda.
No dia seguinte,
sob uma chuva rala,
a lisa luz da folhagem
revela-me em cristais
e olhos de neblina.
FEBRE A TROIS
Mais lábios que a febre
saltitei nos corredores da noite,
desmemoriado de sono.
Insone,
desfaleci poemas sobre a cama.
Nos sonhos aos pedaços,
éramos três a queimar:
tu, eu e a solidão.
Febril,
febril
degelei o passado.
ECLIPSE
Um lento sopro de espera
confrange-me o corpo ao espelho
e quase em silêncio
oculta-me de mim mesmo.
Do outro lado da lâmina
emito sons poucos
para povoar os eclipses
que se desenham na tua pele.
Tão logo
olhos (os meus) – o outro lado do eclipse –
se descobrem minguantes,
crepúsculos de tanto sono,
de tanto precipício.
NERVURAS EM CONTORÇÕES
Tremeluzente como água-viva
acendo e apago palavras nervosas
queimando,
esticando
e alisando a pele
para a iniciação à voluptuosidade nas veias.
Seguirei arriscando em contorções
que me fazem latejar os nervos das mãos
nesses momentos súbitos de plenitude.
Estou água-viva de novo.
SOL EM CHUVERNO
À janela do tempo
tem a névoa nimbando suavemente um céu
que, se emoldura estátua no chuverno
sob o naco de sol
quase irrespirável do fim da tarde, quase noite.
Chama-me estrela
ignorando o frio
e agudece outras estrelas ao sul
para se salvar
como quem anoitece em Pessoa.
POEMA INACABADO
Fenecem flores desmemoriadas
sob o entrelaçar de nossos versos
(muralha de palavras que construímos juntos)
e a língua renomeada
escarpa as entranhas
de poemas inacabados
(como nossa vida toda).
BRISA LICOROSA
Uma brisa licorosa
descortina o dia
e, lança sobre a mesa,
as cócegas febris
de um sol
que se contorce
por entre as memórias
e sandices dominicais.
Busca meus ombros,
umbrais
e nuca,
seduzindo-me agora à sonolência
que se frágua mornal demais
do palato aos flancos.
REBRILHO
Os céus intangíveis
no fundo dos olhos que rebrilham, para se doar e receber
o que entorpece meus ângulos,
movimentam-se aquáticos
rumo à montanha de poeira que se forma atrás de ti.
Curvam-se (ante mim)
astros,
calor
e oceanos
à espera de paisagens outras
que me levem adiante,
a outras indecisões,
a outra incisão na retina laminada
que se abre em asas
e inoculada de pesadelos.
Desmantelo III: mimesis
“Encarno-me nas frases voluptuosas
e ininteligíveis que se enovelam para além das palavras.
E um silêncio se evola sutil do entrechoque das frases”.
Clarice Lispector
ESPELHOS
Entre espelhos
meu corpo estilhaça humores idos.
Não mais fala,
ensombrece e cala.
Não, meu corpo-lâmina não silencia,
nem te esquece.
Para LEDUSHA
O peito, aço.
A noite escorrendo
por entre os dedos
longos e frios das horas.
Os olhos, só suspiros.
Logo, logo rudes os pássaros
estilhaçam a manhã aos meus ouvidos.
Vórtices,
volúpia
e vinho
bem cedinho.
BEIJO EM ECOS
Seus lábios
sanguinários e alados
como o vôo do morcego,
deixam minha nuca
perdida em ecos.
MEMÓRIA DO CORPO
Corpo e palavra adentro
exprimo
e
espremo
toda a cor do amor que escrevo
em rascunhos nos espelhos superpostos da insônia até mais infinito
para ter aonde ir.
TEMPO EM MIMESE
Fisgar em mimese
o tempo que se desrealiza tênue
e em ecos entre os dedos,
desperta-me do silêncio.
Dele subjaz
um olhar de peixe no aquário das horas
- a própria vida –
para em seguida repartir-se
entre luas sonolentas
e o início de outro silêncio.
- o tocar-se dos cílios -
que só os olhos ouvem.
HUMORES BIVITELINOS
Alba,
capturas do escuro
(que arfa nas costas)
as cânforas que o tempo reabsorve
em silêncio tão crível
quanto tatuar-me incensos versos
na pele incinerada.
Nigra,
farejas a terra
(absorvente dos pés)
onde recosta-se a rudeza
para num beijo estilhaçar-me no céu
que traga hoje
todas as luzes entre o chão e a solidão.
EFEITO TYNDAL
Entre átomos e átimos
os fulcros do coração
contorcem-me os hábeis cílios
em efeito Tyndal sob o sol ralo que me
espreita.
Mioses delatam o amor
e dilatam-me em dialetos inamomíveis hoje.
Eis a tônica
(sem gin)
desta tarde limonada.
PALAVRAS EM PÚRPURA
Teço poemas com o fio ivre da não-palavra,
simulando cópula de cores no púbis da página.
Desnudo-me então
palavra sobre palavra à revelia de frias luzes,
à deriva e bem longe de todos os ruídos
mesmo que as páginas dos dias pareçam amassadas folhas de zinco
ou dobraduras de flores em papel alumínio.
Soam em mim ranger e langor
de anelos ventos que reverberam paixões
no mar de amares que primaveras me sugerem a cor púrpura
ou o vermelho fugaz da palavra aberta para sempre
assim como o coração.
PULSOS
Hoje a luz que pensa meu coração
pontua-me os afetos desenraizando-os
tal tropeço teus cardíacos ecos me impõem
onde desespelho-me
para consolar-te em vão
dos teus retiros
aos confins do indizível.
Defloro esse outono
que nos sombreia o peito
com poemas hemorrágicos
em fluxo semovente de desvelo e céleres como o tempo presente.
PRETÉRITO-IMPERFEITO-TEMPO
Vêm das pupilas
os espectros que se descobrem flagrando
as interrupções do próprio olhar;
plasmam-se assim no meio do caminho indefinido
(que me escava sussurrante),
as obliterações do presente-espanto
que se cala para outras visões,
tantas outras revisões.
Pretérito
segue-se
mais que imperfeito
o tempo.
VENTO ÂMBAR-GRIS
São elétricas as sensações que estertoram meus olhos,
minuto a minuto, segundo a segundo longe de ti.
Gritam vento e, estremecem todos os pêlos em vôo,
que até a sombra das palavras
se inscreve acrobática corpo adentro.
Eis a tristeza âmbar-gris crescendo, crescendo
para além do dia esverdeado ontem
pelo limo do muro-solidão.
ABISSAL
Entre luas submarinas
e sóis sobrenadantes,
no meu peito
sobem
e
descem
amores inversos.
Hoje,
feito verso
trago absinto, logo, logo
volateante e abissal me sinto em teu nome.
JOGO DA PAIXÃO
Porque me apaixonas
urge a ti vociferar.
Porque te apaixono
emerge em mim volatear.
Ata-me, então.
Converta-te em mim
sendo eu
suco refinado
do teu desejo.
ALELUIA CLARICE!
As aleluias que me sei hoje
Entretecem e, logo destecem todos os veios
Que a densidão
E a leveza do ser assimilam.
Reclama-se
E afasta-se
Esta daquela
Para perpetuar-se
Em realidade adivinhada.
OBSCURO NADA
Hoje o peito traduz
o não-tempo
e o não-lugar
tangenciando o obscuro
como se até o nada
estivesse ausente
corpo abstrato afora.
Eis a vertigem do pensamento
num conto de palavras
capaz de matar o peso de qualquer sentido.
RISOS RIOS DE GIZ
Sou apenas
esquálida página
do que ditei para ti.
E, perdido em mim mesmo,
crio desvarios
em
risos
rios
de
giz
e
carmim.
JADE
Relvas sobre mim
e entranho-te então
em meus pêlos – novelos de lã.
Apelo por ti
e permaneces
intactamente um rubi...
jade, jade.
CADAFALSOS
Naquele tempo
resisti às sombras,
houvesse forca
nos cadafalsos das horas,
houvesse um silvo apostrofado
em tua direção na despedida
feita de musgos e bolor.
Salvo, anoiteci palavra.
BRASAS DE DENTRO
As pálpebras,
duras como pedras de gelo sobre os olhos,
guardam as luzes frias da noite
e as imagens de agora - águas, águas, águas...
Logo,
nos umbrais da retina,
surgem poemas flamejantes,
para amanhã bem cedinho
degelar o dia inteiro.
Com o hálito ainda túmido,
guardo-os sob nebulosas
nos estilhaços que restam da córnea
neste dia seguinte
para os cegos de amor.
São as brasas do coração, diria.
AOS QUARTOS
Desperta-me o sol
em pedaços
sobre o lençol.
Um quarto
em brasa
e, os outros três quartos,
à tua espera.
A PONTE
Que aquilo
que se enverede
pelos
desvãos
do tempo
crie em nós
fios coleantes
entre
o óbvio
e
o incomum.
DÚCTIL MÃO DISTRAÍDA
Fazer fluir a mão,
distraída e dúctil,
além do rosto,
aquém do resto indizível
que a ele subjaz,
à espera de palavras nas quais,
subitamente,
ver de novo
o mesmo rosto no espelho do dia
se transforme em ver o novo.
MÉTRICA
Cada metro de mim
é um coração na mão.
Como não tenho dois,
milimetro-me palavras sem medidas
até meus confins
tão rizivelmente
centímetros de solidão.
Livro produzido pela
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sábado, 27 de março de 2010
MÚSICA DE PELES
Para esquecer jamais esta música de peles desenhou-se em sombras o meu cansaço aqui onde escrevo correndo no tempo com a velocidade de uma estrela cadente. Subitamente o dia avisa que outras horas virão e outras nunca mais. Às vezes a vida é chuva fina, precipitação de tênues filetes d'água, como uma levitação brumosa que nos envolve. Como uma etérea transpiração. Como uma lágrima sutil quando descai. Contudo, por vezes é enxurrada torrencial. Um aluvião. É a força de um ritmo evocando uma temporalidade: a nostálgica estação das chuvas, próprias do norte do país em tempos de inverno, ou chuverno, como aqui chamamos. Certamente vivemos marcados por fluxos caudalosos. Entre luas submersas, chuvernos e mananciais, humores líquidos se esvaem. Humores diversos, todos corporais: suor, saliva, lágrimas e sangue, como diria lipectorianamente Lu Del Nero
sábado, 25 de abril de 2009

Um sopro de agulhas espeta-nos ao tempo hoje com os estiletes-grito. Lágrimas, não se petrificam mais e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito nosso com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tente fisgar com anzól de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob nossas/minha língua à esquerda da história real. Sobra-se este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido, onde tente lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça, os uivos sob sua pele estarei sempre lá.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
ONDE ESTOU CHUVA?

Debrucei-me sobre uma tarde dessas chuvosas e chovi mais que a chuva. Olhava-me, chuva. Sentia-me, chuva. Torrencial foi meu canto. Um canto sem tanto. Um pranto no canto. Voltei-me uterino sobre a água que me escorria e vi-me um lago, um rio. Com suspiros, submergi. Senti na pele as últimas bolhinhas de oxigênio esvaindo-se até não mais haver sentido nenhum dentro do corpo. Debrucei-me novamente chuva e chovi ainda mais que a chuva final. Olhei-me novamente outra chuva. Veio outra chuva e, desta, sobrou-me imersão total e silêncio, poro a poro, pelo a pelo. Desagüei nesse dia bem sei. Fitei meu olhar no espelho dessa mesma água lisa e parada à minha frente. Eu não consegui ver-me nesse reflexo. Estive pensando demasiado e profundamente em meus reflexos que senti o naufrágio de tão densos os transformei. Atirei-me então em mergulho e nada? Cheguei a zonas abissais e nada de novo? Emergi sem fôlego e assim fiquei um dia inteiro. Refiz-me a duras incursões e movimentos aeróbicos, tentando achar sentido para tanto sentimento em mergulho para o alto. Ou para o meio de uma estrela que ainda se resta, mesmo cadente de sentidos. Belém, 08/04/09.
terça-feira, 7 de abril de 2009
OLOR EM INCENSOS VERSOS

OLOR EM INCENSOS VERSOS
Enquanto tentamos movimentar nossos tentáculos há séculos capturando vida, insistes em sepultar o fundo de teu mar próprio em merencórios lamentos de fuga. Insisto em recortar-me os neurônios e os axônios, ao mesmo tempo em que recorto anúncios animados dos encartes de uma canção floral esquecida nos olhos. La vie em rose deixou-me ontem em pétalas, bem sei. Por quem e para quem se perfumou? Não sei, não sei. Entrego essa essência aos vasos de amantes, aos amores adormecidos no campo aberto no peito como uma colcha de amapolas. Perco-me em ecos-olores nesse campo de espera. Beijo-me então a mão entre as flores do algodão nos teus olhos, entre girassóis nos cabelos e as flores do trigo em tua pele; deito-me flor de mandacaru, do jambo e desenho em seguida uma grinalda de heras sobre a fronte em novos poemas. Estou a varrer-me nesses dias às zonas abissais de um olor tão crível quanto cantar-te incensos versos num silêncio só.
Enquanto tentamos movimentar nossos tentáculos há séculos capturando vida, insistes em sepultar o fundo de teu mar próprio em merencórios lamentos de fuga. Insisto em recortar-me os neurônios e os axônios, ao mesmo tempo em que recorto anúncios animados dos encartes de uma canção floral esquecida nos olhos. La vie em rose deixou-me ontem em pétalas, bem sei. Por quem e para quem se perfumou? Não sei, não sei. Entrego essa essência aos vasos de amantes, aos amores adormecidos no campo aberto no peito como uma colcha de amapolas. Perco-me em ecos-olores nesse campo de espera. Beijo-me então a mão entre as flores do algodão nos teus olhos, entre girassóis nos cabelos e as flores do trigo em tua pele; deito-me flor de mandacaru, do jambo e desenho em seguida uma grinalda de heras sobre a fronte em novos poemas. Estou a varrer-me nesses dias às zonas abissais de um olor tão crível quanto cantar-te incensos versos num silêncio só.
Belém, em algum dia perdido do mês de abril, despetalando-me.
sábado, 21 de março de 2009
ENTRE MAIO E JUNHO: SÃO PAULO.

Tua imagem me chegou como o sol frio de São Paulo, clareando a sala em citrino morno, tocou-me os cílios e ultrapassou as pupilas em midríase ainda de alguma madrugada cinzametálica com suas eróticas flores de fim de maio. Breve, um céu dourado se espalhou sobre a mesa em reflexos quase falsos nos braços da primeira manhã de junho e sua melancólica saudação plantando estrelas no coração até mais o infinito romper de novos dias. As mãos entre parêntesis sobre um corpo de flores, a bagunça das mobílias da sala, a semi-nudez da rua em nebulosa e, resíduos de gritos interceptados no sono siamês que travara meu corpo com a cama labiríntica, numa noite perdida no meio de mais um mês de junho – o mês da partida. Parti-me ao meio bem sei. Logo, logo furtivas flores se perfumariam de novo em meus lábios à porta de outro ouvido. Paixões em São Paulo, entre maio e junho são assim: (in) finitos laços nas entrelinhas do tempo e espaço; luas nos olhos subindo e descendo toda vez que se canta ou sonha ou toca o nome do ser amante. Dormia-se lá sob o peso de mil nervos e tensões em incêndios de canções inexatas de solitude. Um sopro longínquo de agulhas espeta-me ao tempo hoje com os estiletes do seu grito. Lágrimas se petrificam e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tento fisgar com meu anzol de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob minha língua abissal à esquerda da história real. Sobra-me este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido onde tentei lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça-me aos uivos sob sua pele limosa.
sexta-feira, 20 de março de 2009
A 6 GRAUS DE SEPARAÇÃO
Em algum lugar-ponto das fronteiras entre nós há um olhar, há um sol sempre brilhando, no entanto quando se levanta sobre o mar, nos debruçamos no centro do mundo para saudar a frágil vegetação da tundra que agora cobre nossos sentimentos tão antigos. O telhado do mundo parece agora permanentemente congelado por milênios e milênios de pura solidão? Talvez o mais profundo lago de saudades se oculte junto com mais de um milhão de outros em tons velozes que desejam locomover-se em ritmo mais lento, claro e transparente como o cristal majestoso, santo de tanto pranto, que está em nossas mãos: o amor. O norte disso tudo ainda congela, onde rios estão desviados no peito e pântanos drenados há muitas gerações num mar de pesados agasalhos de nossos pais? Onde estás agora que pareces não me ouvir? Sob as seis camadas de desolação? A primeira dormente. A segunda indolente. A terceira imberbe. A quarta se despede. A quinta não se mostra. A sexta dobra a esquina e se continua para sempre. Se chorasses agora por mim talvez meu peito o fizesse também por ti. Por quem o tempo choraria sem nossos por perto? Só a eternidade que nos persegue em ideário dirá.
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