sábado, 25 de abril de 2009


Um sopro de agulhas espeta-nos ao tempo hoje com os estiletes-grito. Lágrimas, não se petrificam mais e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito nosso com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tente fisgar com anzól de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob nossas/minha língua à esquerda da história real. Sobra-se este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido, onde tente lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça, os uivos sob sua pele estarei sempre lá.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ONDE ESTOU CHUVA?


Debrucei-me sobre uma tarde dessas chuvosas e chovi mais que a chuva. Olhava-me, chuva. Sentia-me, chuva. Torrencial foi meu canto. Um canto sem tanto. Um pranto no canto. Voltei-me uterino sobre a água que me escorria e vi-me um lago, um rio. Com suspiros, submergi. Senti na pele as últimas bolhinhas de oxigênio esvaindo-se até não mais haver sentido nenhum dentro do corpo. Debrucei-me novamente chuva e chovi ainda mais que a chuva final. Olhei-me novamente outra chuva. Veio outra chuva e, desta, sobrou-me imersão total e silêncio, poro a poro, pelo a pelo. Desagüei nesse dia bem sei. Fitei meu olhar no espelho dessa mesma água lisa e parada à minha frente. Eu não consegui ver-me nesse reflexo. Estive pensando demasiado e profundamente em meus reflexos que senti o naufrágio de tão densos os transformei. Atirei-me então em mergulho e nada? Cheguei a zonas abissais e nada de novo? Emergi sem fôlego e assim fiquei um dia inteiro. Refiz-me a duras incursões e movimentos aeróbicos, tentando achar sentido para tanto sentimento em mergulho para o alto. Ou para o meio de uma estrela que ainda se resta, mesmo cadente de sentidos. Belém, 08/04/09.

terça-feira, 7 de abril de 2009

OLOR EM INCENSOS VERSOS


OLOR EM INCENSOS VERSOS
Enquanto tentamos movimentar nossos tentáculos há séculos capturando vida, insistes em sepultar o fundo de teu mar próprio em merencórios lamentos de fuga. Insisto em recortar-me os neurônios e os axônios, ao mesmo tempo em que recorto anúncios animados dos encartes de uma canção floral esquecida nos olhos. La vie em rose deixou-me ontem em pétalas, bem sei. Por quem e para quem se perfumou? Não sei, não sei. Entrego essa essência aos vasos de amantes, aos amores adormecidos no campo aberto no peito como uma colcha de amapolas. Perco-me em ecos-olores nesse campo de espera. Beijo-me então a mão entre as flores do algodão nos teus olhos, entre girassóis nos cabelos e as flores do trigo em tua pele; deito-me flor de mandacaru, do jambo e desenho em seguida uma grinalda de heras sobre a fronte em novos poemas. Estou a varrer-me nesses dias às zonas abissais de um olor tão crível quanto cantar-te incensos versos num silêncio só.

Belém, em algum dia perdido do mês de abril, despetalando-me.