terça-feira, 7 de abril de 2009

OLOR EM INCENSOS VERSOS


OLOR EM INCENSOS VERSOS
Enquanto tentamos movimentar nossos tentáculos há séculos capturando vida, insistes em sepultar o fundo de teu mar próprio em merencórios lamentos de fuga. Insisto em recortar-me os neurônios e os axônios, ao mesmo tempo em que recorto anúncios animados dos encartes de uma canção floral esquecida nos olhos. La vie em rose deixou-me ontem em pétalas, bem sei. Por quem e para quem se perfumou? Não sei, não sei. Entrego essa essência aos vasos de amantes, aos amores adormecidos no campo aberto no peito como uma colcha de amapolas. Perco-me em ecos-olores nesse campo de espera. Beijo-me então a mão entre as flores do algodão nos teus olhos, entre girassóis nos cabelos e as flores do trigo em tua pele; deito-me flor de mandacaru, do jambo e desenho em seguida uma grinalda de heras sobre a fronte em novos poemas. Estou a varrer-me nesses dias às zonas abissais de um olor tão crível quanto cantar-te incensos versos num silêncio só.

Belém, em algum dia perdido do mês de abril, despetalando-me.

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