
Debrucei-me sobre uma tarde dessas chuvosas e chovi mais que a chuva. Olhava-me, chuva. Sentia-me, chuva. Torrencial foi meu canto. Um canto sem tanto. Um pranto no canto. Voltei-me uterino sobre a água que me escorria e vi-me um lago, um rio. Com suspiros, submergi. Senti na pele as últimas bolhinhas de oxigênio esvaindo-se até não mais haver sentido nenhum dentro do corpo. Debrucei-me novamente chuva e chovi ainda mais que a chuva final. Olhei-me novamente outra chuva. Veio outra chuva e, desta, sobrou-me imersão total e silêncio, poro a poro, pelo a pelo. Desagüei nesse dia bem sei. Fitei meu olhar no espelho dessa mesma água lisa e parada à minha frente. Eu não consegui ver-me nesse reflexo. Estive pensando demasiado e profundamente em meus reflexos que senti o naufrágio de tão densos os transformei. Atirei-me então em mergulho e nada? Cheguei a zonas abissais e nada de novo? Emergi sem fôlego e assim fiquei um dia inteiro. Refiz-me a duras incursões e movimentos aeróbicos, tentando achar sentido para tanto sentimento em mergulho para o alto. Ou para o meio de uma estrela que ainda se resta, mesmo cadente de sentidos. Belém, 08/04/09.
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