
Tua imagem me chegou como o sol frio de São Paulo, clareando a sala em citrino morno, tocou-me os cílios e ultrapassou as pupilas em midríase ainda de alguma madrugada cinzametálica com suas eróticas flores de fim de maio. Breve, um céu dourado se espalhou sobre a mesa em reflexos quase falsos nos braços da primeira manhã de junho e sua melancólica saudação plantando estrelas no coração até mais o infinito romper de novos dias. As mãos entre parêntesis sobre um corpo de flores, a bagunça das mobílias da sala, a semi-nudez da rua em nebulosa e, resíduos de gritos interceptados no sono siamês que travara meu corpo com a cama labiríntica, numa noite perdida no meio de mais um mês de junho – o mês da partida. Parti-me ao meio bem sei. Logo, logo furtivas flores se perfumariam de novo em meus lábios à porta de outro ouvido. Paixões em São Paulo, entre maio e junho são assim: (in) finitos laços nas entrelinhas do tempo e espaço; luas nos olhos subindo e descendo toda vez que se canta ou sonha ou toca o nome do ser amante. Dormia-se lá sob o peso de mil nervos e tensões em incêndios de canções inexatas de solitude. Um sopro longínquo de agulhas espeta-me ao tempo hoje com os estiletes do seu grito. Lágrimas se petrificam e, até nem brotam. Talvez seja o mau jeito com o inverno. Os nervos esticam-se como se quisessem voar. Pássaros descortinam a manhã sob sombras que se descobrem aos pedaços em direção alguma sobre a mesa. Tento fisgar com meu anzol de letrinhas, palavras que sejam gotas sem sossego sob minha língua abissal à esquerda da história real. Sobra-me este texto ondulante, quase submerso aos olhos arregalados de mais um dia líquido onde tentei lançar iscas de ouro aos peixes da juventude. E isso você sabe, as reticências sinalizam a existência plena da superfície. Ouça-me aos uivos sob sua pele limosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário